sábado, 15 de janeiro de 2011

Realidade Clandestina




- O que deseja meu anjo! Disse Ágape abraçando-a afetuosamente, em seguida pegou-lhe ambas as mãos, beijou-as e a conduziu até o confortável sofá.  Letícia estava ainda com os olhos úmidos, olheiras imensas, a voz rouca parecia fechar o desenho quase funério daquela mulher provavelmente em outros momentos muito bonita.
- Mestre preciso muito de sua ajuda!Tenho medo que ele não queira nada comigo, de fato, não queira nada...
- Por favor minha princesinha, não me chame de mestre, sou apenas um aprendiz, respire calmamente e fale de preferência do início.
- Tudo começou quando eu tinha 18 anos, estava no quarto período do curso de direito e fui estagiar num grande escritório de advocacia. Foi lá que conheci o Antero. Ele não era exatamente o mais bonito e talvez nem seja o mais inteligente. Mas foi tão atencioso, amoroso, educado, ao mesmo tempo tão encantador que em pouco tempo começou a fazer parte dos meus sonhos e logo acabei delirando de pra.... de amor em seus braços.
- Que bonito... Interrompeu Ágape num sorriso imponderável, ela continuava.
- E de repente me vi completamente apaixonada por ele, foi justamente neste momento que ele revelou que era casado com uma juíza do trabalho. Naquele momento, acredito que finalmente descobri o significado da palavra desespero. Dei um tempo na nossa relação várias vezes, tentei ficar com outros mas sempre estava dividida e não adiantava, eram meias tentivas,  sempre voltava, o agravante é que trabalhávamos no mesmo lugar, ele era meu "chefe" e aos poucos ele foi me convencendo que gostava realmente de mim, que não se separava porque tinha dois filhos pequenos e até então nunca havia encontrado uma mulher que realmente motivasse-o a mudar de vida. Eu acreditei nele e já se passaram dez anos. Sou advogada senior do escritório, os filhos dele são maiores de idade e agora ele me fala que não quer um escândalo para o escritório que resultuaria de sua separação e consequente união comigo. Não suporto mais essa situação, eu preciso saber se ele realmente me ama e quer assumir nosso amor. Sabe, eu quero ter filhos, quero ter uma família, quero ter uma vida normal, eu mereço isso. Eu não sou uma pessoa má entende? Ele vive me dizendo que não ama a esposa, que não tem nada com ela há anos, mas as poucas vezes que os vi pareciam tão odiosamente felizes... Eu preciso saber se todos esses anos foram pura perda de tempo, estou confusa. Ajude-me mestre.
-A resposta é muito simples meu amor! Basta que você ouça a história do Conquistador e da Sonhadora. Ouvirás com atenção? Letícia assentiu com gesto de cabeça e o guro Ágape começou a história....
"Era uma vez um Conquistador poderoso e terrível que varria corações femininos sem nenhum pingo de piedade, no entanto, certo dia ele encontrou  a mulher chamada de  Sonhadora tão poderosa e pura que ele pela primeira vez foi tomado de grande comoção, diante disso, mesmo após conquistar o coração da Sonhadora ele resolveu além de poupá-la advertir-lhe que ele era apenas um Conquistador sem alma que poderia destruir todo poder onírico da Sonhadora. Esta ficou furiosa com a suposta rejeição e partiu só reaparecendo meses depois diante do Conquistador para comunicar-lhe com desdém e remoque que havia encontrado há pouco mais de seis meses um homem maravilhoso que a amava acima de tudo e lhe prometia o céu noturno sempre com estrelas e luar, mar sempre calmo a cantarolar seus ouvidos a canção que repetia duas palavras: Te amo. Curioso, o Conquistador perguntou a Sonhadora se ela já havia visitado a habitação do seu amado, se já conhecia algum membro da família, se tinha ao menos seu endereço de correspondência, a todas as perguntas  a Sonhadora respondeu negativamente e estremeceu ao ouvir do Conquistador que o seu amado era casado. Indignada a Sonhadora partiu, não sem antes jogar toda sorte de impropérios ao Conquistador, lembrando-lhe que nem todos os homens eram maus e canalhas como ele. Mais um tempo se passou e a Sonhadora apareceu novamente diante do Conquistador, desta vez estava com olhar humilde e contrito, foi logo dizendo que ele tinha razão e gostaria muito de saber se seu Amado gostava de fato dela ou da esposa. Acrescentou que seu amado jurava que tinha profundo desprezo pela por sua cônjugue e só mantinha o casamento porque ela era louca, desequilibrada e provavelmente sua insanidade seria acentuada em razão do divórcio, orava todos os dias aos Deuses para livrar-se de tamanho estorvo. Ao ouvir tal relato o Conquistador sorriu e indagou a Sonhadora se ela realmente queria saber se seu amado gostava dela ou da esposa. Ela afirmou que faria tudo para ter tal resposta, diante da assertiva o Conquistador fez a seguinte sugestão: Diga ao seu amado que há um meio fácil de livrá-lo da esposa inconveniente sem nenhum problema pois você conhece o Conquistador mais poderoso destas terras e se seu amado autorizar expressamente, o Conquistador esta disposto a seduzir e tomar para si a esposa louca e não amada. Se seu amado autorizar, estará claro que ele te ama e quer contigo viver o restos dos dias caso contrário... Não preciso acrescentar. Ao ouvir o fabuloso plano do Conquistador a Sonhadora foi tomada de grande euforia e prometeu retornar na semana seguinte com a resposta de seu amado. A semana se passou, outras foram com ela e os meses foram se sucedendo e nunca mais  a Sonhadora pois os pés no palácio do Conquistador. Este um dia a encontrou por acaso a caminho do mercado, após as amenidades de praxe de pessoas que há muito não se vêem o Conquistador indagou qual fora o resultado da proposta. Depois de trinta longos segundos calada a Sonhadora  falou com a voz muda: Eu nunca tive coragem de propor o plano ao meu amado, pois fiquei aterrorizada em imaginar qual seria a sua resposta. Então, preferi ficar em silêncio, até troquei de nome, agora me chamo a Realidade. O Conquistador sorriu e pensou, só se for clandestina."  E assim termina a história, você entendeu?

- Sim mestre, entendi! Dito isto Letícia desabou numa grande tempestade de lágrimas, Àgape abraçou-a repetindo baixinho em seu ouvido que ela deveria chorar a vontade afim de que as lágrimas lavassem tudo e não restasse mais nada....

Ps:Quer ler outra aventura do Guru Àgape, clique aqui
by- Adriano Cabral

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Novo ano - Necessidade e Desejos

      
      Há dois anos seguidos venho publicando a mesma mensagem de ano-novo que na verdade não deixa exatamente muitas pessoas felizes, ironicamente, pretendia falar de um possível bom ano para todos indistintamente. Se ainda alguém quiser conferir este texto você pode ler aqui. Na verdade uma boa parte de mim ainda esta mais inclinado ao velho texto, mas andei refletindo que, mesmo sabendo que o "ano novo" nada mais é do que uma mera convenção ele pode servir para nos dá a ilusão (vamos pensar que é uma boa ilusão) que é possível recomeçar, mudar. Nesses períodos é comum as pessoas prometerem aos outros e a si mesmos várias coisas que não cumprem, não porque são mentirosas inveteradas, mas porque simplesmente é comum nós "desejarmos" coisas que efetivamente não queremos ou talvez não ansiamos de verdade, mas talvez precisemos, seja porque amigos esperam algo, a família ficaria orgulhosa ou simplesmente para pagar as contas. Não são desejos, são necessidades e por mais que inventamos e se inventem mil adornos para elas, ninguém realmente deseja necessitar de algo.
      Diante disso, desejo a todos que tenham capacidade de conseguir no ano vindouro realizar essa mágica mudança que pode ser operada apenas com o avançar do calendário e que nesta mudança tenham sorte de conseguirem o que se precisa e mais que tudo, alguns desejos efetivos se realizem.
      Um grande abraço a todos! E vamos sorrir com esperança, enquanto estamos vivos há um futuro.

By- Adriano Cabral

domingo, 19 de dezembro de 2010

Dois Anos de Vida, Parabéns Blog Spensando!

     
       Parece que foi ontem ou como alguns dizem parece que foi sempre... Explico esta segunta parte: Uma das leitoras, obviamente muito gentil, diz que tem a sensação que este blog parece fazer parte da vida dela desde há muito tempo, mas não foi ontem nem sempre, hoje faz exatamente dois anos que resolvi entrar nessa aventura de me expor de todas as formas através de contos, crônicas, ensaios, análises ou simplesmente pensamentos. Já se vão 106 postagens, este ano 54. Em média temos 1200 visitas vindos de 36 países. No Brasil há leitores de 267 cidades, as dez mais estão listadas abaixo no ano de 2010:
1-Recife 2.995 22,21%
2- Sao Paulo 1.508 11,18%
3- Rio de Janeiro 1.246 9,24%
4- Belo Horizonte 1.004 7,45%
5- Salvador 693 5,14%
6- Curitiba 394 2,92%
7- Sao Bernardo 379 2,81%
8- Fortaleza 336 2,49%
9- Brasilia 296 2,20%
10- Belem 258 1,91%
      Eu agradeço de coração a gentileza e a boa vontade destas pessoas de conseguirem extrair algo interessante de meus escritos e do conteúdo exposto aqui. Desta vez não vou citar nomes, são tantas pessoas legais deixando comentários inteligentes e espetaculares, tantos leitores anônimos que simplesmente acompanham que seria injusto citar um ou dois nomes e deixar o resto de lado, por isso, meu agradecimento vai pra todos de coração.
Este ano explorei vários gêneros literários inclusive entrei na crônica política, o que era inevitável diante das eleições presidenciais. E depois de meses de política e de um texto duríssimo como A PRECE, decide "premiar" os leitores mais fiéis (que apreciam o gênero romântico) com o texto Um Amor Para Toda Vida (A novelinha do blog). Inclusive com final provavelmente aprovado pela "torcida" que se formou através dos comentários. Adorei escrever este texto e amei os comentários dos leitores, vocês realmente "construíram" o final.
Convido os leitores a votarem no melhor texto de 2010 que será escolhido dentre os dez textos mais lidos do ano. Por sinal, Idiotices que Temos que Ouvir ao Fim da Relação teve uma monstruosa leitura individual de 1500 leituras.

      Tudo acima exposto me incentiva a continuar produzindo e expondo o que o mundo traz pra mim e acho importante compartilhar. Quanto ao natal, não tenho nada a dizer a não ser a mensagem de natal do ano passado que você pode ler aqui vale a pena conferir.
Por fim, o bloguinho é feito por todos vocês, parabéns pelos dois aninhos de vida. Um grande beijo a todos!
Os dez textos mais lidos do ano de 2010 foram os listados abaixo, quem quiser conferir basta clicar no nome:

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Um Amor Para Toda Vida - Parte Final.

       
      Todas às histórias tem um fim, inclusive as de amor. Elas só duram para sempre quando o autor esquece-se de terminá-las ou talvez as finda com reticências. A minha começou a terminar há três anos quando ouvi as palavras mais terríveis proferidas pela boca de um ser humano:
- Foi um erro, tudo isso foi um erro?
-Como assim? Eu repetia completamente incrédula, era como se eu estivesse sendo enterrada por uma cadeia de montanhas. Naquele instante eu não era exatamente eu mesma.
- Um erro, não podia ter acontecido, sou um homem casado...
- Você só descobriu isso agora?
- Sou um pastor...
- Então é isso, porque não sou evangélica? Não faz isso, não diz que tudo foi um erro! Olha, se o problema for esse eu aceito ser uma. Eu aceito qualquer coisa desde que você não fique aí repetindo que tudo foi um erro.
- Não, não é isso, você é apenas uma garotinha! Sou um velho! Tudo isso foi um erro!
-Porra! Explodi em palavras e lágrimas, eu não sou uma garotinha, eu sou um ser humano que te ama desde que descobriu que é gente. Não faz isso comigo, não faz!
-Não há nada a ser feito, me perdoe se fores capaz, a culpa é toda minha, a culpa por este erro.
Corri em sua direção para abraçá-lo, ele me deteve, eu mal tinha forças para respirar. Foi com se tivesse sido espancada. Não tenho vergonha de dizer isso, fiz o que deveria fazer, eu implorei:
-Por favor, não faz isso!Me deixa chegar perto, me deixa te abraçar! Pelo amor de Deus não faz isso! Eu te amo! Ele continuava com as mãos impedindo meu abraço, faltaram-me forças para manter-me de pé, senti-me completamente destruída, caí de joelhos aos seus pés repetindo, não me deixa!
- Tudo isso foi um erro, me perdoe!
- Mas eu te amo! E eu sei que me amas! Eu senti isso várias vezes quando estiveste em meus braços, senti no teu olhar, senti na tua voz, senti na tua alma, se você me ama, porque faz isso? Pelo amor de Deus, porque você ta fazendo isso!
- Eu... Não sei. Só sei que tudo isso foi um grande erro. Ele largou-me e foi em direção a porta, não sei exatamente o que me fez saltar ficar na frente dele tentando impedi-lo de sair. Até hoje não sei se agi daquela forma movida pelo desespero da perda da minha mãe ou apenas não aceitando que tudo estava acabando ali, naquele exato momento. Ele tentava abrir a porta, eu empurrava suas mãos gigantes, ele era muito grande e forte, eu ainda pequena e frágil, mas tinha ciência que se ele cruzasse a porta não tinha mais volta. Tinha que lutar.
- Fala pra mim que você não me ama! Fala, diz isso nos meus olhos. Provavelmente quem estiver me lendo agora achar-me-á um ser um tanto patético, mas sabe, eu me orgulho de tudo que fiz, por amor.
-O amor não é suficiente! Dito isto, ele segurou firme meus braços, me pôs longe da porta e partiu. Dá pra ter uma idéia que junto com ele o melhor de mim se foi em mil pedaços.
Depois de meses, cansei de tentar entender o ininteligível, ele simplesmente voltou para esposa como se nada tivesse acontecido e ignorava qualquer tentativa minha de aproximação. A dor da perda de minha mãe juntou-se com o deprimente fim de minha história com Davi, era com um castigo divino. Os anos que se seguiram mergulhei no trabalho, estudos, concursos, qualquer coisa que ocupasse não só meu tempo, minha própria alma. Qualquer lembrança que tinha daqueles anos sonhando se converteram no ódio tão ou mais puro que o amor que sentia. Neste turbilhão de insensatez encontrei Felipe quando eu já estava estabelecida em São Paulo. Tinha quase minha idade, professor de direito e metido a escritor. Além de divertido e inteligente escrevia coisas lindíssimas para mim das formas mais inusitadas. Desde cartas, e-mails até poeminhas deixados na minha bolsa enlaçados por dois chocolates servindo como envelope ou num buquê de rosas onde cada uma vinha com uma frase que formava um poema. “Para “piorar” tinha toda paciência do mundo para suportar minha obsessão pelo trabalho e meus chiliques de “não quero ver nenhum humano na minha frente”. Decidimos morar juntos já fazia seis meses, sem dúvida ele era o homem que traria paz e equilíbrio para minha vida, alguém com quem eu sabia que definitivamente podia contar. Foi aí que pintou o convite para ir ao casamento da Mirela. Eu não queria ir por vários motivos, dentre outros que o Felipe tinha uma banca no final de semana e eu teria que ir só. Ele obviamente insistiu pra eu ir, pois dava muito valor aos laços de família. Já fazia dois anos que não tinha nenhum tipo de contato com minha cidade, mas devido à insistência resolvi viajar e passar só dois dias.
Após o casamento fui “convidada” a ir para recepção dos noivos, só podia ficar poucas horas, pois meu vôo partiria na mesma noite. Quando estava sozinha vendo a multidão na pista de dança ouvi uma voz familiar e quase meu coração pulou pela boca.

-Minha filha querida! Há quanto tempo. Dito isso recebi um longo abraço.
-Dona Adelaide, mas que grata surpresa! Esta com a família? Perguntei quase que automaticamente, a resposta fez minhas pernas tremerem.
-Sim, estou com meu filho e esposa, você precisa ver meu netinho! E foi logo me puxando, não tinha como evitá-la, segui-a como quem caminha para um cadafalso, meu ódio agora se transmudava em medo, terror em deparar-me com um casal feliz e seu olhar de esquecimento, quem foi que te iludiu acreditando que um verdadeiro amor pode ser esquecido? Ele tinha um filho, Deus! O que eu esperava afinal?
-Oi professorinha! Respirei aliviada, era Flávio com sua esposa e filho. Instintivamente olhei ao redor procurando o irmão. Flávio parecia adivinhar meus pensamentos e depois das apresentações ele me chamou para um canto.
- Você procura o Davi?
- Eu não!
-Ah que pena! Então deixa.
- Como assim? Espera, não o procurava, mas gostaria de saber como ele ta, cadê ele e sua esposa.
- Você não sabe? Faz quase três anos que ele se separou.
- Como assim?
- A vadia da ex-mulher dele apareceu grávida do Pastor Cleyton, o mesmo que ia e vinha nas missões com ela. A safada ainda teve a cara-de-pau de pedir perdão, claro meu mano não aceitou. Aquelas informações estavam realmente me deixando num misto de êxtase, tristeza, indignação e remorso. Agora tudo fazia sentido, talvez ele tenha descoberto que a esposa estava grávida e achava que o filho era dele, por isso tinha rompido comigo.
-Meu Deus! E onde ele está agora.
- No mesmo lugar de sempre, na casa da mamãe, nunca mais se relacionou com ninguém, parece que desistiu de tudo. Inclusive preferiu não vir pra festa, anda totalmente recluso.
- Que pena, Deus! Olhei o relógio faltavam duas horas para partida do meu vôo. Despedi-me da família e fui em direção a porta quando uma mão me deteve. Tomei um susto, imaginei logo que era meu destino mais uma vez me pregando uma peça, na verdade era Flávio novamente.
- Professorinha, antes que você fosse, só queria te dizer que ele me falou de você.
- Como assim?
- Ele me falou do amor que sente por você.
- Como assim? Parte de mim não queria mais ouvir, saí quase correndo, não sem antes de ouvir a voz dele gritando: Ele ainda te ama!

      Entrei no táxi sem dizer pra onde ir, ele partiu e o motorista parecia entender minha indecisão, pois ficou em silêncio. Enquanto carro seguia comecei a pensar em tudo que passara até ali, o treino de judô, o primeiro tombo, os anos da infância abundante de felicidade ouvindo às histórias e sonhando o futuro brilhante, a decepção as 14 anos, o projeto 18,  o segundo tombo, a morte de minha mãe, o reencontro, os dias mais felizes de minha vida e a humilhante separação. Os anos de agonia e solidão e finalmente Felipe, o homem perfeito, alguém que me escolheu como primeira opção, equilibrado, bonito, amoroso, ele representava o que podia chamar amor adulto, sem dúvida ele merecia o melhor que a vida pode oferecer, merecia alguém só pra ele. Por mais triste que isso possa parecer para alguns românticos de plantão, não tinha outra coisa mais sensata a fazer, como eu disse no início, toda história tem um fim.

- Direto para o aeroporto.

Uma semana se passara e os noivos tinham acabado de se beijar, a igreja estava lotada. Provavelmente foi o casamento mais lindo que vi na vida. Indubitavelmente o pastor que dirigiu a cerimônia sabia falar de amor. A igreja já estava ficando vazia, todos indo para recepção logo ao lado. O pastor olhou pra mim ao longe, curioso, ergui-me e fui aproximando-me dele.
- Linda cerimônia pastor, o senhor sabe falar de amor!
-Obrigado! Mas como você veio parar aqui?
-O Senhor acredita em astrologia?
-Não muito!
-Pois bem, meu mapa astrológico determinou que reencontraria o amor de minha vida hoje, aqui, nesta igreja, o senhor ainda duvida dos astros?
-Pensando bem, tem algo sobre astros no novo testamento e sobre uma estrela que levaria ao amor supremo. Agora penso... Talvez fosse uma Estrelinha.
-Quem sabe... Dei um largo sorriso e ofereci minha mão, Davi tomou-a e fomos caminhando para fora do templo, sentamos no banquinho de frente a um laguinho da igreja e ficamos abraçados em silêncio por um longo tempo enquanto lágrimas desciam suavemente de nossas órbitas, e por fim nos beijamos, o beijo que selou para sempre o fim e de nossas dores e o verdadeiro início de nossa história de amor que se renovou através dos anos.
      Sim, logo após o casamento da Mirela fui pra São Paulo e rompi com Felipe, ele merecia muito mais do que ter uma mulher para sempre dividida, pertencendo de fato a outro. Larguei o emprego, pus meu apartamento à venda, se fui irracional? Provavelmente alguém pode estar pensando isso. Mas talvez alguém que agora me lê entenda que nada no mundo vale mais que um amor como esse, um amor para toda vida.

E foi assim que nossa história teve fim. Será que essas histórias realmente têm fim?

By- Adriano Cabral















terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Um Amor Para Toda Vida (parte 3) - Os Sonhadores e o Despertar

      
       Toda história de amor tem um início e a minha começou com um tombo, ou melhor, com um quase tombo evitado por mim, nisso, salvei alguém de uma queda e meu mundinho perfeito definitivamente caiu. Explico, tudo aconteceu numa tarde quando estava retornando para casa de minha mãe, lá estava eu subindo as escadas quando de repente percebi que uma moça estava perdendo os sentidos, por sorte estava há dois palmos de distância, bastou um pequeno salto e consegui segurá-la nos braços. Não hesitei em levá-la para casa enquanto minha vizinha falava sem parar, sua voz só sumiu quando minha mãe apareceu e foi ela a destinatária do falatório da vizinha. Quando repousei o corpo da moça na minha antiga cama de solteiro foi que pude perceber o quanto ela era bela, aquela beleza inata que dispensa qualquer adorno ou adjetivo: Bela. Ao fixar meus olhos em sua face, inexplicavelmente tive um estremecimento seguido de uma sensação de bem-estar. De súbito esse estado de coisas foi cortado pela voz que ecoou entre lágrimas chamando pelo nome da mãe. Percebi que ela estava em choque, mas naquele instante soube quem era aquela bela moça, era a Estrelinha.
      Até aquele dia Ester era apenas a mocinha que conhecera desde que ela era uma criança e que fiz questão de manter contato através dos anos. Ela era aquele tipo de criatura que tentamos preservar por perto para lembrarmos como o mundo pode ser puro e bom. Confesso que os anos foram se devorando e ela foi desaparecendo aos poucos, sem nenhuma boa explicação até que sumiu definitivamente. Já não tinha notícias dela há quase dez anos, mas todas às vezes quando lembrava algo definitivamente bom e imaculado, lembrava da Estrelinha. Chamamos um vizinho que além de médico era bom amigo da família que lhe aplicou sedativos. Fiquei horas no silêncio daquele quarto imaginando a dor que ela deveria estar sentindo, da solidão, afinal era só ela, a mãe e avó que por àquelas horas também estava hospitalizada. Também fiquei desenhando mentalmente como teria sido a vida daquela menininha que agora se transformou nessa mulher. Uau e que mulher! Era constrangedor pensar essas coisas naquelas circunstâncias, ainda mais em se tratando de um homem bem mais velho que ela e casado. Diga-se de passagem, nem tinha certeza se ela se lembraria de mim ainda. No instante que completei o raciocínio ela acordou, parecia ainda zonza em razão dos sedativos, então pude testar sua memória chamando-a pelo antigo apelido, assim o fiz com grande pesar na face que o momento exigia. Ela desatou a chorar, aproximei-me e segurei suas mãos, as minhas lágrimas agora se misturavam com as dela, então estretei-a nos braços, foi neste instante que o mundo se despedaçou. Ao sentir o contato tão próximo do corpo dela ao meu, ao recebê-la tão entregue, tão indefesa, tão exposta em meus braços, senti algo que nenhum homem digno poderia sentir naquele momento: Desejo! Desejo dilacerante, intenso, imenso, desesperador, como se não só meu corpo, meu espírito estivesse há séculos cruzando um infinito deserto e aquela boca fosse à última fonte de vida do universo. Involuntariamente estreitei mais ainda o abraço, e ela ainda estava lá, inerte, provavelmente ainda entorpecida pela medicação e pela dor. Não pude nem quis pensar em mais nada e a beijei como um cão faminto. Em seguida ela adormeceu. Parte mim ficou aliviado, talvez ela nem se lembrasse da minha insensatez. Fiquei mortificado. Passei a noite toda a me martirizar, monstro, era a palavra mais doce que podia repetir pra mim mesmo. De manhã cedo minha mãe comunicou-me da decisão de manter Estela como hóspede nos próximos dias. Fiquei estarrecido, tal situação seria insustentável. Eu não podia mais permanecer lá, corri para o quarto que outrora fora do meu irmão mais novo e fiz as malas, tinha que imaginar uma desculpa para sair daquela maneira. Mas antes de tudo tinha que enfrentar o preço do pecado. Bate na porta, Ester permitiu meu acesso.
- Não vai de jeito nenhum!
- Nada que você disser vai me demover. Nem mesmo peço seu perdão porque nada é capaz de limpar algumas nódoas. Tenho certeza que não é de uma presença como a minha que você precisa num momento como este de sua vida. Nisto já estava abrindo a porta quando estremeci ao sentir aqueles dois bracinhos envolvendo minha cintura, voltei-me e ela beijou-me com tanta certeza que não podia acreditar no que estava acontecendo, em seguida disse-me com o sorriso mais belo do mundo: Realmente não preciso de você neste momento, precisava e preciso de você por toda minha vida. E foi aí que nos tornamos sonhadores...

E em nosso sonho em cada beijo era um verso de uma longa saga ou será épico? Em que Ester revelava-me que já me amava desde criança e seu projeto 18 (Será que eu também já não profetizava meu amor ao ocultar dela nas cartas que trocávamos informações sobre minha namorada, agora minha esposa?). E nas longas horas caminhando à noite na praia, de mãos dadas eu quem me calava encantado e com um sorriso cravado na face. Pra que falar e interromper o canto da sereia, pra que falar se a cada dez passos um beijo apaixonado e ardente se espalhava por todos os átomos de nossos corpos? Já passava dos 38 anos mas sentia-me criança nas mãos daquela mulher que despertava em mim a sede e a fome de ser livre.
       E em nosso sonho ela conseguia me desvencilhar dos grilhões da vergonha e do pejo e dar total vazão ao meu desejo. Tudo feito por amor é purificado, tudo será perdoado e nada impedirá de duas pessoas que se amam serem felizes, repetia ela sem parar. E qualquer lugar era o lugar para os amantes. Uma entrega sem limites, sem parâmetros, sem restrições, apenas acompanhados e cronometrados no ritmo ardente de nossas bocas, línguas, pernas, saliva, tendo como motor os corações. Finalmente descobri o significado da palavra prazer.

      Já fazia 13 dias que estávamos em contato contínuo, dormindo poucas horas, minha mãe completamente alheia a tudo não poderia pensar o impensável. Estávamos no morrer da tarde no parque das esculturas. O mar batia nas rochas, a lua surgia e só estávamos nós dois no mundo, era domingo, provavelmente o segundo domingo da minha vida adulta em que eu não pusera os pés na igreja, e desta vez não sentia a menor falta disso. Ela estava deitada no meu colo, amparada pelos meus braços.
-Eu também te amo!
-Porque você fala tanto isso hein Estrelinha, só pra eu dizer também?
-Não precisa!
-Não?
-Claro que não, você me disse há 17 anos que seu horóscopo havia te dito que eu era o amor da sua vida, esqueceu seu bobão?
- Ah, só isso?
- Não. E dito isto, ela começou a intercalar as frases com beijos, ora curtos, ora mais longos conforme o tom delas. Eu sei que você me ama, pelo jeito que me olha, olha não me persegue, me queima, me marca, me prende com o olhar, sei que você me ama quando sinto seu toque em completo compasso e bailando no meu e o seu se misturam, sei que você me ama porque se esse amor todo que sinto fosse só meu, não existiria amor no mundo. E quando eu estava prestes a confirmar, veio um beijo dominante, e nos amamos ali mesmo sob o teto de estrelas.
Estava tudo decidido, não havia condições nenhuma de continuar casado com Brenda. Parte de mim ainda me dizia que a amava, mas quase o todo de mim falava e gritava que era Ester a única mulher da minha vida. Se Deus escreve torto, há de escrever por linhas tortas, logo Ele está sempre certo. Ester nem precisou pedir, eu resolvi definir logo minha vida prometi pra ela fazê-lo antes da chegada da minha até então esposa. Resolvi fazer por telefone.
- Oi Davi, tenho novidades!
- Eu também, gostaria que você fosse forte!
-Espera, a minha é mais importante...Voce já sabe né?
- Mas... Fui interrompido.
-Você será papai!
-Como?
- Você será papai.
Neste exato instante a Estrelinha entrou no quarto ansiosa para saber o resultado daquela história...

Saiba o final clicando aqui
By- Adriano Cabral

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Um Amor Para Toda Vida (parte 2) - Morte e Vida


     
      Após a palestra fui direto ao aeroporto, a saudade da minha terra era imensa, ô ditado perfeito: Não há lugar melhor que o lar. Mesmo assim não me arrependo de ter passado meus últimos três anos na paulicéia desvairada, aprendi muito, tive tempo o suficiente para superar o  estressante divórcio com aquele ser nauseante e voltava pra casa revigorada. Antes de subir no avião liguei novamente para minha mãe, e de novo, estranhamente ninguém atendeu. Ainda bem que meu tio ligou-me hoje cedo dizendo que tava tudo bem e a mamy tava na casa da vovó que de teimosa nao tinha telefone. No final das contas a mãe era a única pessoa no mundo com quem tive uma recíproca história de amor. Não, não me julguem, naqueles tempos o conto de fadas nunca vivido era algo que trabalhei bastante para esquecer. Laborei tão bem que realmente acreditava que tudo aquilo era nada... ou quase nada, afinal, já estava com 25 anos e um divórcio nas costas e a vida adulta para viver. Adeus sonhos de criança.
      Cheguei ao prédio da minha avó no final da tarde,  ainda estava subindo lentamente as escadas dirigindo-me ao segundo andar e no caminho deparei-me com minha amiga de infância Mirela que assustou-me ao abraçar-me fortemente. Olhei-a espantada e ela faou com toda formalidade de praxe: meus pêsames. Naquele instante foi como se um raio fritasse meu cérebro, minha nuca, porque você ta falando isso, balbuciei já imaginando a resposta. Você não sabe? Sua mãe faleceu. Respirei fundo e de repente o ar começou a faltar-me, fiquei hirta como um cadáver, abri os olhos ao máximo mas não via nada na minha frente, comecei a despencar e tudo ficou escuro...
      O teto branco começou a aparecer e pouco a pouco fui recobrando os sentidos. Meu corpo estava pesado e as pálpebras tinham dificuldades de manter-se erguidas. Percebi que estava numa cama, o quarto era familiar, mas não sabia onde estava. Tentei levantar-me mas estava muito zonza, lembrei-me da cena com Mirela e da suposta queda nas escadas e pensei que provavelmente aquilo teria sido um sonho, afinal, não obstante sonolência não estava ferida, logo não tinha caído e minha mãe estava viva. Uma voz grave e suave disse: calma Estrelinha. Meus olhos seguiram o som  e de repente notei que no canto do quarto um homem me olhava, seu rosto aos poucos foi se formando através de minha visão ainda embaçada, meus nervos começaram a entrar em ebulição quando seu rosto ficou nítido, havia um grande pesar em sua face, uma mistura de tristeza e piedade. Ele veio até a borda da cama e segurou minha mão. Gelei ao mesmo tempo que meus olhos formaram uma grande tormenta de lágrimas, e entre soluços e gemidos ele me abraçou. Eu chorava pela minha mãe, a única pessoa que amei e fui amada, eu chorava porque jamais iria vê-la, sentir seu cheiro, receber seus abraços e suas queixas, e ouvir sua risada gostosa.

Chorei mais dolorosamente porque um sentimento que tinha certeza que estava morto ressuscitava de forma lancinante e insana, naquele mesmo instante, com toda dor da saudade, das tempestades outrora vividas, das desesperadas tentativas frustradas de viver de forma diferente, da mágoa de nunca ter sido sequer notada. Foi naquele instante que minhas lágrimas foram sufocadas por um beijo, intenso, longo, sofrido, supremo, plangente, cheio de culpa, desejo, desespero, pesar, gáudio, horror, cheio de amor. Sim, no dia que o amor morreu ele surgiu como um monstro de luz e desejo. Foi neste dia que Davi deu-me o primeiro beijo, logo em seguida deitei novamente estava em completo torpor, segurando a mão dele desfaleci.
      Quando despertei já era manhã e dona Adelaide assomou à porta chamando-me de filha e explicando que não precisava preocupar-me com a minha avó. Logo soube que ela havia sido socorrida durante o enterro de minha mãe e estava hospitalizada sob efeito de sedativos. Fora desejo de minha mãe que eu não fosse informada da sua morte, queria poupar-me para não estragar meu grande momento em São Paulo. O enterro havia sido na manhã de ontem, Davi quem se responsabilizou de tudo, ele estava de férias e passava uns dias com a mãe enquanto sua esposa estava em missões evangélicas no norte do país e só retornaria em 15 dias. Ao ouvir a menção da esposa dele senti um calafrio na espinha. Eu não tinha ninguém na cidade, minha mãe morta,  minha avó no hospital. Dona Adelaide insistiu para que eu ficasse hospedada na casa dela até quando fosse necessário. Não tive muitas forças para recusar. 
      Quando Dona Adelaide saíu do quarto recomecei a planger, desta vez contida e silenciosamente. Vários sentimentos guerreavam dentro de mim, a dor da perda, o medo pela minha avó, a saudade, a culpa de ter beijado um homem casado e ao imaginar que nos próximos 15 dias ele estaria ali a sós comigo, fiquei horrorizada comigo mesmo pois no meio das lágrimas...
Sorri.
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by-Adriano Cabral

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Um Amor Para Toda Vida (parte 1)


      Toda história de amor tem um início e a minha começa com que seria o mais terrível tombo do mundo. Calma, explico, lá estava eu aos 9 anos correndo como um foguete em direção a sala de aula para pegar minha bolsa, tinha acabado a aula de judô, ainda estava de quimono, quando tropecei na escada, estava em queda livre, de costas, provavelmente morreria com o tombo, no entanto alguém impediu fatídico deslance.
-Bem que tinha lido no horóscopo  que havia grandes chances de encontrar meu grande amor, mas não esperava que ela cairia direto em meus braços.
- Brigada moço. Falei no misto de encanto, vergonha e ainda tomada da adrenalina da quase queda. Estava suja, suada e completamente descabelada em razão do judô. 
- Não há o que agradecer, não é todo dia que cai-me nos braços belíssimas garotas, mesmo que venham em miniatura, qual seu nome meu anjo?
-Ester
-Então é muito mais que anjo, é uma estrela, como é pequena serás a estrelinha.
E lá estava ele pela primeira vez falando comigo, indagou-me pelo irmão dele que estudava na minha turma de nome Flávio. Logo ele foi me informando que tinha ido lá falar com a diretora em razão das baixas notas do irmão. Veio no lugar da mãe que não podia vir, não sabia mais o que fazer pois também não tinha tanto tempo para ensinar ao irmãozinho. Diante do meu olhar prescrutador ele riu  falando:
- Sério, sou irmão dele, não sou tão velho, tenho apenas 22 anos.
-Quer dizer que você queria que Flávio estudasse mais?
-Sim, claro.
- Eu posso te ajudar se você me levar pra sua casa nos finais de semana, adoro o conjunto habitacional que vocês moram. A gente estuda e brinca e todos ficam felizes. Nem precisa fazer essa cara, meus pais deixarão.
- Fechado Estrelinha
-Seu nome?
-Davi.
      E a melhor parte da minha vida dos 9 aos 13 anos era ir nos finais de semana estudar com o chato do Flávio. Davi sempre ia e trazía-me de volta, neste intervalo falava comigo sem parar, na verdade monologava, pois calada quase sempre eu estava contudo meu sorriso ficava praticamente cravado em minha face. Pra que falar e interromper o som daquela voz que ,não obstante ser grave e forte, sempre falava coisas divertidas e interessantes. Muitas vezes na companhia do Flávio íamos tomar sorvete ou passear no parque. Mas não há felicidade que dure pra sempre e Flávio mudou de escola. Confesso que naquela época não tinha processado ainda o que se passava comigo, mas aos 14 anos tornei-me uma adolescente bastante mal humorada e triste. Para minha sorte minha avó tornou-se vizinha de Davi e ao menos uma vez por mês arranjava uma desculpa pra ao menos dar um olá. Para piorar naquele mesmo ano vi Davi aos beijos com uma mulher, foi como se tivesse tombado, não de uma escada mas sim de um grande abismo, não podia acreditar naquilo, corri para casa da minha avó e minhas órbitas explodiram numa chuva de raiva e tristeza. Foi aí que percebi que o amava e precisava tê-lo comigo a qualquer custo.
      Nos anos que se seguiram fiz o projeto 18, imaginei que ao ficar adulta, poderia mostrar pra ele que não era mais aquela garotinha. Portanto, as visitas foram se tornando mais raras a fim que ele fosse esquecendo que um dia eu fora a pequenina que tomou nos braços. Não deixei de visitá-lo, mas em intervalos bem maiores. Meu intuito era que o tempo passasse e um dia ele me visse pensasse: Uau! Quando você se tornou essa linda mulher! Sempre trocávamos cartas, sim naquela época ainda se escrevia essas coisas, nelas ele me falava com entusiasmo do mestrado em história e de sua formação em teologia, queria ser pastor, enquanto eu falava de toda minha vidinha e de como ela era mais legal desde que o conheci (risos). Assim mesmo longe não deixava ele me esquecer nunca. Um mês após completar 18 fui na casa dele. Já fazia seis meses que não nos víamos e um mês sem cartas. Cada toque da campainha meu coração saltava no vestido apertado, que demora pra atenderem.
-Boa tarde senhora Adelaide, como vai! Tudo bem? Que ótimo! O Davi não está? Onde? O que? Casou?.
Sim, o inesperado aconteceu. E lá estava eu caindo novamente, mas desta vez não se tratava de um mero abismo sem fim que até então eu singrava, era o próprio inferno que se abria e devorava minha alma. Depois não me recordo muito bem o que aconteceu, só sei que ao voltar pra casa tinha certeza que minha vida acabaria naquele dia. Mas sobrevivi, os dias se passaram, as noites também, e mesmo que desde então tenha vivido como um zumbi, a vida seguiu adiante. Acabei aceitando uma proposta de namoro na falta de algo melhor pra fazer e em poucos anos fiquei noiva. O nome dele era André, professor de educação física de uma academia simplesmente me idolatrava. Seu ânimo e sua dedicação me entusiasmava mais do que qualquer coisa. A dor da perda do meu amor de infância ainda estava lá, mas eu tinha que seguir em frente pois naqueles tempos escuros não acreditava que haveria mais chances de cair de novo nos braços do Davi. No entanto, o futuro, companheiro da surpresa e amigo do passado  das pessoas apaixonadas nos pregou uma peça e acabei de forma inesperada estreitada carinhosamente nos braços de Davi. Mas isso será contado na outra história.

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by- Adriano Cabral