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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

As Horas.



Resolvi republicar este "ensaio" sobre As Horas, seja por que pediram, seja porque de repente alguém aprecie sua leitura, afinal, a época que foi publicado o blog não tinha mil visitantes mensais(agradeço a generosidade de todos). Por fim, talvez tenha sido republicado para ajudar alguém a não viver apenas em função das horas.

AS HORAS, comprei o dvd deste filme há mais de quatro anos e ainda estava plastificado. Porque então comprei? A resposta é simples, eu intuía que era um grande filme, afinal tinha boas atrizes e um roteiro inspirado numa renomada escritora Virginia Woolf. E porque demorei tanto para vê-lo? A resposta é mais básica ainda: eu tinha medo, calma, vou explicar. Eu tinha um conhecimento razoável da vida da escritora e concluí logo que o tema do filme seria pesado e sombrio. Provavelmente tocando em temas como o vazio da vida, suicídio e tantos outros temas nada amenos. Como eu andava fraco de espírito não ousei vê-lo, e se o vi agora, é porque finalmente sinto-me mais forte do que nos últimos quatro anos. Como podemos resumir o filme? Trata-se das histórias de três mulheres, Virginia (interpretada com dedicação por Nicole Kidman), Laura (a competente Julianne Moore) e finalmente Clarissa ( a deusa da interpretação Merly Streep). As três histórias têm como núcleo o livro Mrs. Dalloway (escrito em 1923, um dos primeiros livros a adotar o estilo “fluxo da consciência”). Virginia escreve o livro, Laura prepara uma festa para o marido e a todo instante pára para lê-lo se identificando com a personagem principal, por fim, Clarissa prepara uma homenagem para o ex-amante que costumava chamar-la carinhosamente pelo nome da personagem título do livro de Virginia.
          Virginia luta contra própria demência enquanto escreve desesperadamente seu livro. No ato de escrever, cada vez mais ela penetra no seu mundo criado, e afasta-se do mundo “real”. A doença, a solidão, a saudade de um passado e a necessidade de “viver a qualquer custo” vai movendo a personagem que, não obstante a doença, demonstra uma força incomum para lutar pelo, talvez, único bem que ser humano tem: a liberdade. Esta liberdade vai desde viver como deseja até partir da vida quando ela perde o sentido.
      Laura tem um lindo filho, está grávida, tem um marido doce, fiel, completamente apaixonado e dedicado, portanto, ela tem “tudo que uma mulher desejaria”. No entanto, a vida real não é um conto de fadas. A “sociedade” nos fornece “modelos” de felicidade e vida perfeita que, ou não são verossímeis ou pior, quando o são, simplesmente não garantem a tal “felicidade” até porque, por mais que se venda os “modelos” de sucesso, o ser humano é um complexo de indivíduos, e como tal, por mais que aparentemente “devesse” ser feliz, ele pode simplesmente aspirar mais, ou apenas desejar algo diferente. Laura é um desses indivíduos que mesmo com “tudo” de “bom” é uma mulher completamente infeliz e está determinada a por um fim na própria vida já que não sente forças para enfrentar os padrões sociais pré-estabelecidos e encontrar seu próprio caminho de felicidade.
      Clarissa mora com Sally, é uma mulher bem sucedida, inteligente, aparentemente feliz e na parte inicial do filme vemos esta mulher forte dedicando-se a preparar apaixonadamente uma homenagem ao amigo escritor Richard. No desenrolar do filme, mais uma vez, deparamo-nos com o confronto aparências x realidade. Clarissa vai se revelando uma mulher completamente apaixonada, não por Sally, e sim pelo amigo Richard (interpretado com brilhantismo por Ed Harris) que além de aidético, gay, abandonou-a há décadas para ficar com outro homem. O filme avança e percebemos que a única parte da vida de Clarissa que parece fazer sentido tange aos encontros com o moribundo escritor e as lembranças do grande “momento” que compartilharam no passado. Clarissa ama num típico transbordamento de amor, Richard, esquelético, cheio de feridas, trancado num quarto não quer mais viver, e vive apenas em função de Clarissa, e de alguma forma, Richard também a ama, tanto que, em seu momento final pede desculpas a ela por partir e diz que nunca houve um casal tão feliz quanto eles nem nunca haverá, mas estava na hora de ir, ele não podia viver apenas em função das horas...
      A constante entre os três personagens que no final da trama se entrelaçam umbilicalmente, é a “fome de viver”. Virginia não aceita a existência de uma alucinada que mais dá trabalho ao marido do que qualquer coisa, Laura opta pela morte à viver na casa “perfeita” onde era uma estranha, e finalmente Clarissa, não obstante todas as oportunidades que tinha na qualidade de mulher moderna muito bem sucedida, preferia priorizar um relacionamento totalmente longe de qualquer modelo, justamente por ele ser único tão único, tão perfeito, que ela não aceitava nada menos que isso.
      Ed Harris emociona e nos leva a refletir sobre o verdadeiro sentido da vida e do amor. A existência é experiência única, não comporta segundas chances nem repetições, logo, ela ao menos deve ser sugada até a última gota, com toda intensidade que ela pode nos oferecer. O amor não pode se limitar às convenções sociais, as limitações morais, deve ser livre, intenso e pleno. No amor, encontramos aqueles momentos quase “eternos” que nos marcam, nos moldam e acalentam as horas difíceis, até mesmo no último suspiro.
      Virginia teve uma vida plena e privilegiada, mas diante da inevitável invalidez decorrente da insanidade ela prefere a morte, porque fora isso só restariam...
      Laura tentou se adequar aos padrões, buscou agradar “todo mundo” mas era completamente infeliz pois sua vida toda até o momento que tenta o suicídio se resumia apenas....
      Clarissa teve o maior momento de sua vida com Richard, e as poucas vezes que se sentia viva era ao seu lado, por isso mesmo não abria mão desta convivência e dedicava-se a ele como poucas mulheres se dedicam ao marido ou filho porque fora os momentos que teve com ele, sua vida se resumia...

...às horas.

by  Adriano Cabral