Dizem que ao chegar ao mundo os bebês, a exemplo das pessoas que dão um rápido mergulho no mar, respiram bem fundo para enfrentar o estranho ar que terão no misterioso mundo além-do-útero. Eu acredito que tomei bastante ar, mesmo assim, não foi possível conter as lágrimas de saudade da doce, aquecedora e tranquila casa dos bebês.
E enquanto eu respirava, um certo dia estava brincando no parquinho. Só quem é criança sabe como é maravilhoso correr sem destino, sentir o chão barrento, subir nos escorregos mais altos tão somente para deslizar deliciosamente por alguns segundos, ou ainda, deixar-se embalar por alguns minutos num balanço. Estava eu perdida nesses prazerosos afazeres quando ao longe pude ver minha mãe cabisbaixa e triste. Não pensei mais em nada e corri em sua direção. Como alguém poderia estar triste naquele dia, logo ali, num parquinho? Pensava enquanto voava para os braços da minha mãe. Era um momento raro, onde a quase sempre consolada iria tentar consolar. Ela abraçou-me forte, olhou-me tão profundamente e de forma tão singular que parecia não ver sua filha naquele instante, mas uma outra pessoa e, em seu olhar, pude notar também que se a expressão de dor diminuía, de outro lado, as lágrimas deslizavam em abundância, lágrimas paradoxalmente casadas com um sorriso. Embalde eu inquiria as razões daquele angustiante e misterioso pesar, desesperada, sem saber o que falar, acabei dizendo pra mamãe que ela não chorasse, que eu não iria levá-la pra casa naquele momento, melhor, daquele dia em diante moraríamos no parque então ela não mais choraria sentindo falta das brincadeiras. Contudo, não obstante seu sorriso perdurasse, nada do que eu dizia a acalentava, nem tampouco cessava as lágrimas. Diante disso, só me restou misturar minhas lágrimas às dela, enquanto ela me abraçava cada vez mais forte. Deveria haver uma regra sagrada que proibisse das mães chorar. Tive que respirar fundo...
E com o passar dos anos, cada vez ficava mais longe do cordão umbilical. De repente, só as respostas dela nem seus carinhos eram suficientes. Essa separação involuntária e natural dos filhos, afigurava-se pra ela como uma violência sem limites. Então, os conflitos em razão disso eram inevitáveis e quase em todas as discussões ela lembrava do quanto me amara e cuidara por todos aqueles anos. E o que recebera em troca? Não sabia mais quem era sua filhinha, a sua filhinha, queria ao menos ser minha amiga. Mas como uma mãe pode ser amiga de uma filha? No fundo ela sabia do absurdo disso, mas pra ficar por perto, ela estaria até disposta a se rebaixar, perder o cargo eterno de mãe para ser uma reles amiga. Num desses dias de conflito, ela chorou muito e uma memória, que era só névoa, veio viva e, mesmo depois de todo aquele tempo, aquela lembrança voltava nítida e incomodava-me. As lágrimas estavam ali para provar quão ingratas são as filhas e, naqueles instantes, pude novamente encontrar aquele olhar, no parque... Naquele momento, esqueci o motivo original do pesar materno e indaguei muitas vezes pra minha mãe o que significaram as lágrimas daquele dia e o porquê daquele olhar, que se repetiu naquele instante. Ela desconversou, mas em seguida disse em soluços: Você tem os olhos da sua vó. Não sei porque, mas naquele instante senti um aperto no peito, um tremor nos membros, e um frio a percorre-me a espinha, meu coração parecia bater mais lentamente. Ela estreitou-me nos braços de forma tão intensa que eu quase desfaleci ali mesmo.
Não dormi direito naquela noite, fui assombrada por fantasmas ou por minha própria mente confusa que entabulava diálogos travados e sem sentido entre o sonhar e o despertar. Uma certa hora acordei em pânico, suando muito, falta de ar, pensei na minha avó, pessoa que nunca conheci (minha mãe evitava falar dela, a saudade doía muito). Eu tinha os olhos dela. Essa ideia se apresentou naquela hora da madrugada como uma aberração, uma monstruosidade, eu com os olhos de uma estranha... não, não, era a mãe da minha mãe; Não! é uma estranha que está morta, e seus olhos foram devorados, devorados... Assim como um dia serão os meus...
Assim como foram os da minha mãe. Quando eu recebi a noticia estava morando em São Paulo, o trabalho e outras ocupações só me deixaram chegar ao Recife três dias depois. Não tive coragem de ir ao cemitério. Foram dois anos de dor viva e silenciosa, e toda uma existência de lembranças... A agonia foi tamanha que tentei não mais lembrar...
Até que nasceu Elisa. Antes dela vir ao mundo, ter um filho era apenas perder meu tempo e meu precioso trabalho e pior, minha liberdade. Até mesmo quando cheguei ao ultimo mês de gestação repetia pra mim que só tiraria um mês de licença, nada de quatro. Qual foi meu engano! Ao ver aquela criaturinha rosada, indefesa, sozinha, chorando e se acalentando em meu seio; ao sentir que a vida dela dependia de mim, percebi ao mesmo tempo que a minha felicidade dependia dela. E quando foi relevado o milagre de ser mãe, quase que não quis retornar ao emprego. Respirei fundo...
E estava no leito de um hospital, sem poder me mexer nem falar. O peso dos anos se tornavam insuportáveis. Meus três filhos passaram toda tarde comigo, apenas minha neta, de mesmo nome que sua mãe, minha primogênita, estava ao meu lado lendo algum livro em voz alta pra mim. Eu não conseguia distinguir muito bem o que ela falava, mesmo assim sua voz era como uma doce melodia de amor celeste que me fazia sentir mais tranquila diante do que me esperava.
Ao olhar nos olhos da minha neta mais uma vez vi minha mãe e pude sentir exatamente o que ela sentia ao olhar pra mim. Nesse momento sorri, talvez minha neta não tenha notado (é bem provável que ela tenha visto apenas a lágrima fugidia a deslizar no meu rosto), mas naquele último instante, percebi como minha vida nem a da minha mãe tinham sido em vão. Nós estávamos lá, de novo, renovadas nos olhos da pequena Elisa, e, enquanto tudo se tornava mais confuso e escuro, me orgulhei de um dia ter podido olhar o mundo através dos olhos da minha Avó. Respirei fundo, e parti...
by-Adriano Cabral
