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sábado, 6 de março de 2010

TODAS AS MANHÃS DO MUNDO - PARTE 2


AVISO: Antes de ler este texto leia a primeira parte logo abaixo.
—Como? Repetiu friamente a voz de outra lado da linha.
—Não faz isso comigo! Retrucou, dolorida a outra voz quase sumida.
—Não sejamos ridículos, isso não cabe mais, não sejamos ridículos.

Ridícula foi aquela cena na praia. Se portou com uma garotinha chorona. Que grande figura deve ter parecido para ele. Uma louca! Mas de verdade, daquelas que só se encontram na Tamarineira. Sabia que a sua falta de experiência seria prejudicial ao encontrá-lo, deveria ter feito com Florentino Ariza que colecionava amantes de verdade e não só “ficadas” de adolescente, assim estaria melhor preparada quando o encontrasse. As suas palavras tiveram a força de um raio que despedaçou completamente num só golpe a porta que dava acesso a sua alma. Ela se sentia ainda forte, mas nunca tão frágil, nunca tão indefesa no mundo, e pela primeira vez descobriu o prazer de não ser independente. Mas eram muitos sentimentos se contrapondo e o medo da rejeição vinha junto ao gozo daquelas setas de cupido desferidas em poucos segundo, seria ela merecedora? Não! Não! Era ele sim, e se ela estiver correta, por mais desatinado que tenha sido seu comportamento ele voltará.

E o telefone emudeceu, e agora restou um nada, uma dor que crispava seus nervos, gelava sua alma. O desespero imperava. Ligou novamente, agora alguém teria que ouvir tudo que tinha para dizer.

      Cada beijo a enlouquecia mais, ela se deixava comprimir pelo abraço forte dele, cada beijo era depositado num lugar diferente de seu corpo, cada um era lento, suave, uma reverência, forte como um golpe de morte, intenso ressuscitando a alma. Cada beijo era como uma nota musical transformada num gemido, cada uma fazia descobrir um novo significado para o prazer. Ela, totalmente entregue, permitia livre acesso para mãos que exploravam com maestria caminhos nunca antes conhecidos por homem algum. Cada toque um desespero, explosão de desejo, abria um novo caminho, e ela fazia de tudo para deixar as trilhas mais acessíveis. Não havia outra coisa a fazer senão permitir, o tudo, naquele ritual magnífico de amor. Algum tempo depois, ficou se perguntando como ele conseguia fazer tanta coisa num espaço tão pequeno de um automóvel. Repentinamente ele parou. Ela nada falou, puxou-o para si com violência, queria mais, queria que aquele momento fosse eterno ou que sua vida fosse ceifada ali, assim, poderia morrer feliz. Ele disse que era melhor parar. Ela ficou possessa, que absurdo era aquele? Que loucura! Porque parar? Indagou ainda ofegante.
— Eu te amo e te respeito, mas você é apenas uma garotinha. Disse ele em voz baixa ainda ofegante.
A resposta de Daniela foi um tapa que desferiu com toda sua força no rosto de Alex. Este permaneceu da mesma forma que estava, com o olhar desolado. Após a agressão, nada disse, apenas deu partida com o carro. Parecia não dar importância às súplicas dela pedindo perdão. Ela já não era a fortaleza e a serenidade encarnada que conhecíamos a algumas linhas atrás. Era dele, uma coisa dele, e se orgulhava disso. Só sentia o desespero ao imaginar que poderia perdê-lo de repente. Em seus 15 anos de vida jamais tinha sido tão feliz. Alex estava com ela o dia todo, e até mesmo em seus sonhos. Tudo isso ela repetia para ele, dizendo que se ela era ainda uma menina, seria sua menina, e ele seu papai de 23 anos. Não era a primeira briga por esta razão. Mas até aquele momento ela nunca havia partido para as vias de fato. Se eles se amavam porque não poderiam consagrar seu amor naquela cópula que com certeza seria abençoada por Deus? Ao dizer isso seus olhos brilhavam tanto que não foi possível impedir o que aconteceu em seguida, o carro ainda estava em movimento enquanto ela punha as mãos nas coxas dele, em movimentos contínuos e ida e volta, até que suas mãos foram e enfim se detiveram, segurando algo quente, firme, úmido e macio. Os olhos dela ardiam, e após encontrar os dele, aflito no volante ela o beijou tão lascivamente que o carro quase bate na calçada. Ele não resistiu e encostou o carro em qualquer lugar e na cidade do Recife começou a chover torrencialmente enquanto o fogo ardia num automóvel em alguma rua escura.

— Eu já não te disse para não ligar?
— Olha, pois agora vou te punir....

— Isso não é normal, não é sadio, acabou entende? Acabou!

— Olha que agora vou te punir

— Vou desligar esta merda de telefone e não quero que você me ligue nunca mais...

— Nunca mais... com certeza, você quer que eu atire no peito, na boca ou na barriga?

— Isso realmente é coisa de maluco? Como é que pude me envolver com alguém como você.

— Ontem eu era tudo para você... minha loucura te encantava, mas cansei, vou matar nós dois e acabar o sofrimento, e tudo realmente ficará perdido...
— Para com isso! Que coisa, seu draminha pessoal não irá me comover...
— Perdido...

— Tenha dignidade...

— Dignidade... dignidade... preciso de dignidade...

— Pô! Tou chorando de novo... nunca pensei que iria chorar por alguém.... ainda mais por você... Só lamento que ninguém vai saber de toda riqueza que nós temos, de toda uma vida linda e particular que existiu... e você agora, jogando tudo fora... mas você vai sofrer, pois, se vamos morrer, a culpa é toda sua...

— Sabe de uma coisa, você não quer se matar? Atira logo e me deixa em paz....

(estampido) de um lado um grito, de outro um estremecimento.
—Ah! Estamos morrendo.... estamos morrendo....

—Deus! Será que sua loucura é real? Você fez mesmo?

— Nós não devíamos morrer... não é just...
(entre soluços a voz sumiu)


Era como todas as manhãs do mundo. E quase ninguém no planeta saberá do drama que acabara de se passar. Não saiu nenhuma nota do jornal. Ao chegar em casa e ver o corpo inerte, com os olhos esbugalhados e encharcados de sangue, só restaram aos pais chorar a morte da cria querida.
Era como todas as manhãs do mundo e se, um dia após a morte do amor, você pôde caminhar na praia de boa viagem as 6:00 da manhã, viu mais uma vez uma menina ajoelhada na areia orando por alguém que não quis esperar o trem das sete, e partiu. E mesmo diante do sol majestoso que saudou as águas com seu tradicional espetáculo multicor, vista ao lado da menina, estava uma enorme vela acesa, pois dizem que só ela pode iluminar o caminho dos suicidas ao paraíso.

Era como todas as manhãs e mundo, e eu era a menina na areia, pensando na minha pobre amiga Daniela que sonhou e pagou tão caro preço do sonho e após duas horas, sozinha, sangrando em agonia, desapareceu da terra e agora estava deitada, para sempre, misturada na areia do esquecimento. Somente para ela, morreram todas as manhãs do mundo.

By-Adriano Cabral
05/10/00 9:00 Am

domingo, 24 de janeiro de 2010

A PRIMEIRA VISTA


Bonita demais esta nem quero chegar perto, olha só, loira, linda e é claro, deve ser muito burra... Todas são burras, não pode haver exceção a esta regra imutável da natureza. Olha o sorriso! Que Sorriso plácido, aberto, puro, burra, só pode ser burra e ingênua, ou seja, ela é má, pois todas as pessoas burras tendem a magoar os outros e nunca se tocam. Não será fácil trabalhar com ela...
Sério demais, que cara fechada, Deus! Deve se achar o “grande pensador” com aquele par de óculos. Que olhar! Será que ele é de pedra? Que cara emburrado, esses caras metidos a inteligentes são todos iguais se acham dono do mundo e da verdade, olha como ele fala! Olha como ele fala! Que autoridade, ele que não venha para perto de mim. Será que eu deveria me ajoelhar e adorá-lo para poder alcançar uma parte de sua iluminação? Não será fácil trabalhar com ele...

O PRIMEIRO CONTATO... E OS QUE VIERAM
Que droga! Seja mais organizado, não toque em nada meu, Seu... Seu... O que? Tá pensando que fala com alguma idiota que teve a triste sina de ser tua namorada? Comigo não meu filho, me respeite! Repito, não toque em nada meu, nem uma caneta, nem uma caneta, seu estúpido!
Olha, deixa de ser imbecil e me passa isso agora! Tu não és dona de nada aqui és empregada como eu. Isso aqui não é concurso de beleza querida, você ainda não se tocou? Eu acho que esta tintura no seu cabelo que faz seus pensamentos chegue de forma “retardada” no seu cérebro. Ah! Finalmente um momento que ao te olhar sinto uma grande satisfação... Sim que lindo olhar de fúria...

O QUE O CHEFE DISSE
Ou vocês põem de lado as diferenças, ou ambos vão para o olho da rua, agora só quero ver vocês aos beijos e abraços, ouviram?

E O RESULTADO
O casal se entreolhou descrente da trégua e já pensando na futura despedida quando...

A SEGUNDA VISTA?
A princípio Júlia e André, isso mesmo, são o nome do dileto casal, simplesmente, mesmo trabalhando lado a lado o dia todo, não mais se falavam, nem mesmo quando precisavam...
Os dias se devoravam, e já se podia ouvir um cumprimento, quase que formal de ambos, uma pergunta burocrática, um amistoso empréstimo de material de trabalho...

ATÉ QUE UM DIA FINALMENTE HOUVE A SEGUNDA VISTA
E certo dia houve greve de transporte, o banco estava quase vazio, no setor onde Júlia e André trabalhavam só compareceram os dois e eles passaram o dia inteiro sozinhos, dir-se-ia que as armas foram embainhadas, e ambos despiram-se das armaduras...
Ele realmente é inteligente, hábil com as palavras, demonstra uma sensibilidade fora do comum, tão forte e vulnerável, tão sério e ao mesmo tempo hilário. Seu olhar é tão doce, e, mesmo quando as palavras são proferidas com decisão e força, sua voz está sempre macia, calma, plácida, envolvente... Que olhar...
Ela realmente é uma exceção, uma inteligência nata, e vejo em seus olhos o que antes achava ingenuidade, na verdade é a virtude que está incrustada nela como uma marca indelével, proclamando a todos quão virtuosa é esta mulher em sua vida, quão suave é sua voz, meiga, terna, bela, parecia que todas as belezas se uniformizara numa só pessoa....

DAS INDIRETAS QUE NEM SEMPRE O CORAÇÃO DOMINA A RAZÃO

Ontem aconteceu uma coisa absurda André, uma loucura, doidice mesmo. Sonhei que era tua noiva, vê se pode, tem lógica? Não, de forma alguma, não quero dizer que eu não ia quere, mas você sabe NE? Não tem nada a ver. Se o sonho foi bom? Foi horrível! Não, não é isso que você tá pensando é que havia alguma coisa que impedia a gente de ser feliz. É feliz, acabei acordando triste.
E por falar em doidice, sabe, eu sempre quis ser pai, quero muito mesmo, desde que me dou por gente, que penso num filho, é, filho, pode rir. E, sei lá! Acredito que você daria uma ótima mãe. Vê se não fica convencida depois tá, para com essa cara! Para com essa carinha de convencida safada agora. Tira esse sorriso do rosto...

E HÁ SEMPRE UM POETA
E, este poeminha eu fiz em homenagem ao aniversário de nossa querida colega de trabalho, Júlia Ferraz:

Há vários tipos de belezas
Aquelas que nos dominam com um olhar
Nos leva aos portais do inferno, seduzem, endoidecem
E maculam os mais nobres corações

Há aquelas que desafiam o poder do tempo
E mesmo com o passar dos anos,
Não se curvam, mas se erguem em toda sua majestade.

Há aquelas que nos trazem a paz
Transmitem-nos candura,
E nos leva a devoção

Mas há uma, superior a todas,
Não pode ser vista apenas sentida
Poucos a têm e menos ainda possuem a ventura e a perspicácia de encontrá-la.
Com seu simples toque, qual Midas, ela engrandece e torna belo tudo que toca,

Emana da alma, impregna o ar, seduz, acalenta e dá guarida,
Somos bem aventurados, pois esta beleza superior que vos falo
Encontrei em ti (minha?) não, nossa Júlia.
E eis que quaisquer portas e trancas que havia em um dos corações foram destruídas de bom grado, e agora, era só esperar para o final feliz?


MAS A PEDRA, SEMPRE HÁ A PEDRA MEU AMIGO

Júlia estava como casamento marcado, já namorara há cinco anos, já haviam comprado casa e móveis e há muito exibia a aliança de noivado.
André namorava firme há sete anos e praticamente crescera com sua então namorada.
Crises, dúvidas, conflitos, medos, desejos.

E ENQUANTO ISSO?
Olhares ternos, sorrisos largos, toques afáveis com as mãos, camaradagem, carinhos fraternos, almoços longos, e haja poesia...
Horas no telefone, confidências mútuas, e algumas lágrimas no caminho, coração aflito, falta de ar, e o suspiro ao verem um ao outro entrar. Telepatia? Claro que havia, ou algo mais que isso, eles não apenas sentiam um ao outro, se iluminavam ante ao outro cada um era sol e astro iluminado. Eles não queriam mais estar juntos, estavam condenados a isso.
E quem dirá nos corredores se foram amantes? E quem não dirá por aí que havia algo especial... E quem não poderá supor que um simples toques de mãos havia mais energia que uma bomba nuclear.
Mas, ele a respeitava muito, não tinha nada a oferecer, tão jovem e não queria vê-la sofrer...
Mas, ela esperava por ele, pois sem sua força decisiva sabia que tinha muito a perder... Sem a sua força ficaria totalmente desprotegida... E lá estava o casal diante de outro, apenas mais um passo, apenas uma porta que naquele momento estava aberta separava-os, só um passo... Antes que a porta fechasse.

TEVE BEIJO?

Ela pedira demissão, há algumas semanas não se viam, ela olhava-o profundamente, esperando...
Ele nunca a vira tão linda, a sentia na palma da mão, a dela, tremia junto a sua, fitando-se como dois desesperados. As cabeças cada vez mais se aproximando. Ele pergunta se pode beijá-la, ela responde que sim, e do jeito que lhe convier.
Os olhos caminham um para o outro, o tempo pára, os ponteiros do relógio simplesmente congelam, e não há mais nenhum ser humano na terra exceto André e Júlia. E aqueles segundos parecem uma eternidade. Cada vez mais perto, em algum lugar alguém festeja antecipadamente a libertação do amor, em algum lugar uma menina chora de emoção, e os lábios quase se tocam quando...
Ele desvia a boca e a beija, ternamente na testa.
Em algum lugar há um grito e a porta se fecha abruptamente. Só restam dois só chorando baixinho, porque até para se chorar nesses instantes, tem-se que sofrer calado.


E NO FINAL DAS CONTAS?
Ela se casou com o tal noivo tiveram um lindo filho, mas ela pediu divórcio um ano após o casamento. Dizem as más línguas que o maridão triturou os poemas escritos pelo ex- colega de trabalho... Ah! Nome do filho? André.
Ele viveu sua vida só mesmo, acabou mudando radicalmente seus valores e sua forma de pensar, dizia não acreditar em amor eterno e coisas do tipo, mas toda vez que à noite estava sozinho no seu quarto pensava na Júlia...
Tinha vontade de chorar. Às vezes um beijo mal dado é uma maldição anunciada, que só passa, após a campa.

A ÚLTIMA VISTA
E um dia lá no futuro distante, talvez eles se encontraram e já velhinhos, deram-se as mãos, caminharam pelo jardim da vida até o pomar dos esquecidos.

Adriano Cabral. 19/12/2000

terça-feira, 7 de julho de 2009

EPITÁFIO


O CAMPEÃO

Parecia ser uma dia de festa em Juçaral. Todos estavam ansiosos para inaugurar os novos trajes domingueiros. Aspázia passara a manhã toda se emperiquitando em frente ao espelho. Dona Nena usaria o mesmo vestido da formatura de sua filha na faculdade de Vitória enquanto os homens saíam com mangas de camisa e, uns poucos, com ternos surrados. O prefeito declarara feriado municipal, trouxe até a banda de música da cidade de Pombos. Queria a cerimônia com todos os requintes. Só foi difícil dissuadi-lo de montar um palanque para os discursos, quase o fez, mas o padre Roger tirou tal idéia da cabeça do engenhoso prefeito Joel. Todos os candidatos a candidatos se preparavam para o evento.
Neco acordara cedo a contra gosto. Não conseguia entender porque de tanta euforia. Estava realmente com vontade de prolongar o precioso sono.
Ao ver o filho sem a mínima vontade de levantar da cama, sua mãe gritou, eita menino sem coração, o professor se vai e ele nem tá aí. Oras, exclamava Neco interiormente, pois temia a fúria materna, que grandissíma porcaria foi a partida do professor... O que renderia para ele seus ensinamentos? Aonde pararia? Se ao menos ele fosse professor de verdade, de leitura, talvez valesse um pouquinho daquele alvoroço todo... mas não... um professor de volei naquele oco de mundo? Só ía para os treinos porque mainha ameaçava com uma surra. Nestes pensamentos levantou-se desolado, vestiu sua melhor roupa domingueira sem nenhum entusiasmo e seguiu com toda família para cerimônia. No caminho topou com o odioso e asqueroso mendigo Gambá.

Dir-se-ia que toda Juçaral resolvera se ajuntar no mesmo lugar. Até gente ilustre de Recife como dona Suzana Rêgo Brito e seu filho estavam lá marcando presença. O padre alheio a tudo isso falava com voz monótona os textos bíblicos. Depois dele, o prefeito fez seu discurso, pomposo e longo que quase adormeceu com a mesma veemência fatal os vivos presentes. Depois do prefeito se sucederam muitos oradores, cada qual preocupado em mostrar seus dons de oratória ou talentos "artísticos" tudo isso para enaltecer o morto e porque não, fazer uma breve auto propaganda. Lá se ía quase duas horas de epitáfios "emocionados". E haja poesia ruim para tornar mais ainda lúgubre aquele evento. Choro mesmo vinha da pobre viúva e de suas duas filhas. Aílton, o professor, tinha sérias dúvidas se o pesar da viúva era por causa da morte do marido ou pelo suplício dos intermináveis discursos.
Se a morte não comovia a turba de oradores outra razão lhes traziam grande desgosto naquele momento, a razão era que mesmo com a imensa quantidade de "ouvintes" não havia palmas, fosse boa ou má a oração. No final das contas se tratava de um funeral, e pedir aplausos já parecia além da conta, não obstante o poeta Agenor achar tal fato lamentável. Mas há sempre os recalcitrantes, Tony, cabo eleitoral do eterno prefeito Joel, aplaudiu sozinho durante trinta espetaculares segundos o patrão.
Finda, para alívio geral, a última palavra do último orador, o coveiro começou a jogar areia no ataúde. Agora era o poderoso som da areia a bater no caixão que dominava aquele recinto, foi aí que até o prefeito se recordou que se tratava de um funeral. Aquele som aterrorizante cessou ao surgir um forte alarido. Era o Gambá, que ébrio como sempre, teimava em se aproximar da viúva. Dizia que também queria falar. Obviamente, ninguém iria permitir que um alcoólatra famoso pelas suas estultices falasse num funeral de pessoa tão ilustre e bem quista como a do Professor Manoel da Silva. O tumulto ía crescendo pois o biltre do bebum não desistia de seu intento. Esperneava, empurrava, mas tinha que falar, tinha que mostrar para povo. A família do morto vendo o pobre mendigo a chorar implorando pelo direito a palavra, acabou se compadecendo, para indignação geral dos principais da cidade. Ninguém sabe se foi o impacto da morte sobre a viúva, ou a vingança que a mesma imaginaria ter contra os miseráveis principais da cidade, que impiedosamente castigaram ouvidos dela e de todos os presentes com toda aquela hipocrisia oratória, o fato é que dona Maria ordenou para que soltassem o Gambá, e que o deixassem falar. Para espanto geral da cidade.
O Gambá já livre, com todo o fedor que Deus lhe deu, se aproximou a beira da campa e com a voz embargada pela emoção falou:

— Hoje Juçaral dever chorar, hoje todos nós devemos chorar, cada pé de banana, cada gomo de cana, cada capim desta terra, cada sabiá deve estar lamentando a morte do nosso amado Manoel Da Silva. Quem ele foi? Tudo. Quem eu sou? Nada. Eu sou um bêbado inútil, um desgraçado sem ninguém, que vive pedindo um centavo pelo amor de deus para encher meu rabo de cana e depois arranjar brigas por qualquer coisa. Eu sou um estorvo para o mundo; Uma coisa qualquer que no dia que desaparecer da terra será esquecido na mesma hora em que se fechar sobre mim a campa. Mas eu digo a vocês... houve um dia. Houve um, ao menos um, que eu fui alguém, que eu fui amado que fui admirado por todos desta cidade... houve um dia em que fui carregado nos braços do povo, que fizeram festas e dança em meu nome; um dia em que todas as principais raparigas da sociedade desejaram me ter como par no baile do Sábado. E este único momento glorioso que tive em minha vida devo ao meu amado Professor Manoel Da Silva. Ele sim, que trinta anos atrás foi meu técnico e conquistou campeonato pernambucano de vôlei pela seleção de Juçaral. Título que levou o nome desta terra a ser respeitada por um momento em todo Pernambuco, por um momento... E fui eu quem ganhou naquele mesmo campeonato a medalha de melhor jogador. Por isso fui tão festejado nesta cidade... e todo aquele curto mas belíssimo momento da minha vida devo ao Professor Manoel Da Silva. Que chegou aqui neste fim do mundo. E tentou através do esporte, dá uma opção de vida a esta criançada, a educar esse povo sem vez, a dar uma luz a quem só pode ser cortador de cana ou marginal. Agora vocês devem perguntar, porque falo tudo isso, será que quero com isso retomar meu esquecido dia de glória? Não, só queria que estes jovens que aqui estão, que esta criançada olhem para mim, olhem bem mesmo e vejam como se pode desperdiçar uma vida por causa da burrice de se entregar ao álcool e a vadiagem, a fraqueza. E vejam que merda é desperdiçar as oportunidades tão raras que a vida dá para gente. Vejam como é triste conviver com um homem tão bom como este que aqui está morto e não aproveitar esta dádiva o máximo possível. Pois assim como só temos uma vida, muitas vezes só temos uma chance.
Antes mesmo de terminar, toda terra em volta ao cemitério de juçaral ficou úmida, mas não choveu.... todos ficaram em silêncio. Todos na cidade se sentiam agora tão órfãos de tudo como Gambá, aquele que só teve um único momento, um. Neco também chorava, e pela primeira vez sentiu a falta que faria o professor.
Depois desse dia Gambá desapareceu de Juçaral, uns dizem que se suicidou, outros que voltou a tomar suas canas pro lado de Amarají. Neco a partir deste dia prometeu a si mesmo que não seria um cortador de cana, seria como seu Manoel Da Silva, um Campeão.
by Adriano Cabral