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domingo, 3 de julho de 2011

Idades do Sexo



                                              
Pré-História

      Eva passou horas no espelho, somada as tantas outras no cabeleireiro e todos os retoques aquela noite deveria valer a pena, afinal, ela ia mais uma vez encontrar o Adão. O vestido preto acima dos joelhos e decote generoso anunciava o que estava por vir. A campainha toca, ela corre, mal abre a porta e já está sendo sufocada pelos beijos de seu namorado que são retribuídos prontamente. Não dá para resistir e eles fazem ali mesmo, no chão da sala dos pais de Eva. Adão aguarda pacientemente sua adorada se refazer de toda aquela verdadeira luta do prazer. Já dentro do automóvel, as mãos continuam a procurar as mais variadas e criativas formas de deleitarem-se. O carro teve que parar na primeira rua escura, não dava para segurar até o cinema. No cinema foi impossível ver alguma cena do filme. Uma senhora, provavelmente com inveja do casal segundo Adão, chamou o lanterninha e ambos foram expulsos do cinema, mas felizes, pois logo, logo estavam no paraíso encontrado um nos braços do outro.


Idades da Paixão.

Cada mês de aniversário de namoro era uma comemoração. Fotos, vídeos e cartões eram publicados diariamente nas redes sociais. Adão e Eva estavam juntos em todos os momentos possíveis até mesmo nos improváveis. Ambos dormiam juntos todos os dias, ao vivo, por telefone e até pela via internet. Adão morava sozinho e Eva já tinha as chaves da casa. Não raro, ao chegar, ele se deparava com sua amada completamente desnuda e faminta. As poucas vezes que um saía sem o outro era um tédio só, afinal, como eles não cansavam de repetir: ambos eram um. As famílias sentiam falta, os amigos também, mas quem precisa de mais alguém quando se tem em dois todo um universo? Morar junto já não era uma opção, era a única coisa a se fazer, casados ou não. E após cinco anos de namoro casaram.

Período Industrial

      Ele era um dos principais comerciantes de peças automotivas de sua cidade. Ela tornou-se professora universitária. No primeiro ano de casados faziam amor cerca de três vezes por semana. No segundo ano nasceu pequeno Abel. Adão ampliou sua loja e Eva acabou o doutorado. Compraram o terceiro carro apenas para saídas com toda família. Abel deu os primeiros passos enquanto o casal agora se amava em seu ninho de amor duas ou três vezes por mês. A barriga crescia, não, não era outro filho, era o peso dos anos atingindo Adão. Eva não tinha mais tanto tempo pra ficar no espelho, tinha muita prova pra corrigir e planos de aula para elaborar. A cada quinze dias ela passava os finais de semana com a mãe, afinal família era muito importante. Enquanto Adão toda quinta-feira ia bater bola com os amigos, afinal, como se pode viver sem eles?

Certa noite, após passar vinte dias fora da cidade em razão de um congresso acadêmico a saudosa Eva, após banho tomado vai pra cama e deita de bruços por cima do maridão ansioso.
- Amor, quero fazer sexo!
-Eu também, já faz quase um mês, estou subindo pelas paredes. O olhar os olhos da esposa ele percebe que estão fechados, sacode levemente a mulher, ela desperta assustada.
-O que você quer Adão?
-Pensei que você queria fazer sexo, porra!
-Ah! Quero mesmo, mas estou com preguiça. Dá licença? Mas se você vai ficar bravo, faz aí, não me importo. Dito isto Eva deixou-se cair na cama de pernas abertas, no segundo seguinte dormiu. Adão desolado preferiu ligar o notebook e entrar na internet. E deitado ao lado de sua mulher nua, encontrou sua satisfação pela via ciberespacial.
Idade Moderna.
      Eva cada vez era menos encontrada em casa. Agora vivia incorporada a uma rotina de aula, cursos, palestras e grupos de orientação de mestrado e doutorado. Adão já estava com cinco filiais de sua loja, e vivia também mais atarefado ainda. Quando chegava em casa geralmente a esposa estava a sua espera, dormindo, quando não, plugada no computador se comunicando com alunos e colegas de trabalho. Tratavam-se carinhosamente, beijavam-se uma vez ou outra quando se encontravam. Sexo? Era uma ou duas vezes por mês, e olha lá. Para todos os olhos eram o casal perfeito com a família perfeita. Foi nesta época que Eva começou a sentir o doce sabor do pecado ao ser ostensivamente elogiada por Cain seu melhor orientando do doutorado. Em pouco tempo Eva estava rendida aos encantos da vil serpente. Há mais tempo Adão dava suas escapadas do trabalho para tomar cerveja na vila, estacionando seu belíssimo carro na frente do bar. Neste, as adolescentes encantadas pelo seu Tucson do ano disputavam uma com as outras na ânsia de proporcionarem prazer ao Adão.
      Às vezes Eva se perguntava por que Adão não insistia mais pra que ela cumprisse sua obrigação de fazer sexo com ele, mas preferia não pensar muito nisso.
      Às vezes Adão se indagava do porque Eva andar pra cima e pra baixo com aquele rapaz de óculos e cara de retardado, não devia ser nada, ele era apenas um garoto.

Fim dos Tempos.

Os anos se passaram, os filhos cresceram e casaram. Eva após ter sido abandonada por Cain que viajara pra Recife com outra, resolveu pedir o divórcio. Não era mais possível sustentar aquela relação. Adão ficou surpreso com a decisão da esposa insistiu, mas desistiu após ela destilar todo veneno acumulado de ano após ano daquela longa relação. Os filhos intervieram, os ânimos foram arrefecidos, promessas foram feitas e refeitas. A vida continuou na mesma levada, cervejas, alunos e uma cama, que definitivamente só serviria para dormir.
      Quando soube da notícia da morte de Adão, Eva estava deitada num quarto de hotel a milhares de quilômetros de distância de sua cidade. Ela já passava dos sessenta anos e não era mais capaz de seduzir alunos, ao lado dela, dormia tranquilamente um garoto de programa. Ao desligar o telefone, uma misteriosa lágrima solitária desceu de sua enrugada pálpebra, respirou fundo, aliviada, aninhou-se ao homem que ainda ressonava, e dormiu tranqüila.

by- Adriano Cabral

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Matando o verdadeiro amor e espalhando ilusões II


Nos meus diálogos do dia a dia ou nos bates papos de internet eu venho defendendo a tese de que os seres humanos deveriam repensar a forma de ver, sentir e criar as expectativas sobre o amor. Quem já me conhece vai se entediar daqui pra frente, pois já conhece esse papo...

O primeiro grande problema esta na criação padrão de homens e mulheres. Homens são educados, treinados e adestrados a expandirem seu desejo. Desde pequeno os pais vivem dizendo que querem o filho "Pegador". Ai de algum adolescente que falar que é virgem (mesmo que isso seja a mais pura verdade) e ai mais ainda dele se disser que ainda não esta com "vontade de ficar com uma mulher".(provavelmente vai ser tachado de gay). De outro lado os homens são educados, repito no padrão mais comum, de reprimirem os sentimentos: homem que é homem não chora, é a máxima mais conhecida e repetida ad infinitu através dos pais amigos e afins. Homem que demonstra muito sentimento é tido pela maioria como alguém que possui tendências homossexuais ou lhe é atribuído sinal de fraqueza e pouca masculinidade. Isso ocorre principalmente entre os mais jovens. Existe uma norma preexistente para que o rapaz modelo seja insensível e trate mal a sua namorada ou tenha várias delas. Deu um buquê de flores, escreveu poemas? É otário ou besta. Isso anda tão patogênico que os homens em regra têm dificuldades extremas de conversarem com pessoas do sexo feminino, diante destas dificuldades, adotam estereótipos de rapaz "engraçadinho" ou "machão" tudo na tentativa de esconder ao máximo o que realmente pensa, sonha e sente.
Então o homem cresce com excesso de desejo e uma grande dificuldade de expressar seus sentimentos.E a mulher? Ela é educada, treinada, e adestrada a sentir... Todas as revistas femininas, sites, blogs falam que elas devem se deixar "levar pelo coração" que tudo "só vale a pena" se for um grande amor, e sempre tem que ser algo gigante, enorme, arrebatador e eterno. De outro lado elas são treinadas, adestradas e educadas a reprimir o desejo. Mulher direita não pensa nisso, mulher direita não faz aquilo... Minha filha? não não de jeito nenhum. Isso chega a ser tão patogênico que as jovens moças acabam se martirizando e se castrando mentalmente justamente porque não aceitam a si mesmas, não obstante a natureza sempre fazer o seu serviço, qual seja, despertar o desejo. Tal desejo é considerado uma afronta dentro da alma feminina e ela se sente mal consigo mesma, acaba sufocando e matando este seu lado. Principalmente quando o desejo não vem acompanhado do tal "grande amor". Diante disso, a mulher padrão vai crescendo reprimindo não só seu desejo mais o desejo de seus pares. De outro lado tem, em regra, grande facilidade de expressar seus sentimentos ou ao menos os sentimentos que ela "deveria ter" diante de determinada situação.
Quem leu até agora o texto já viu que há um problema umbilical: homens e mulheres são educados de forma a pensar e expressar sentimentos e desejos de formas diametralmente opostas, logo, a base esta comprometida, é impossível uma relação amorosa ter mínima possibilidade de funcionar se justamente a base que se funda as expectativas do casal é justamente oposta, qual seja, a mulher quer ver do homem a expressão de sentimentos que ele, ou tem dificuldades extremas de expressar ou simplesmente não quer expressar, de outro lado o homem quer da mulher a expressão do desejo que ela justamente foi educada a não possuir. O resultado disso é uma grande catástrofe mexicana...
São mulheres sentindo desejo e inventando amores, porque justamente elas não aceitam o fato que o desejo pode vir sem todo "turbilhão e gritante sentimentos". Ao atribuir sobrevalor as relações que possuem acabam se frustrando ao ver o que de fato elas são. Então partem numa busca desvairada “se apaixonando" em intervalos cada vez mais curtos, "sofrendo cada vez mais...” até que finalmente se frustram, tornam-se pessoas amargas e práticas e já não acreditam no..."Amor".
De outro lado os homens ficam saltando de relacionamento em relacionamento para "provar a virilidade" e fazer seu "papel de homem" (os que não conseguem fazer isso vivem sonhando com tal coisa) e quando encontram uma mulher que possa por em perigo essa "armadura" geralmente acabam sabotando a relação com medo de se fragilizarem. Como sabem que as mulheres padrão exigem muito "amor" esses homens fingem tais sentimentos, até mesmo acreditam no fingimento, mas um dia fatalmente cansam e saltam fora.
Portanto, a maioria das relações é pautada apenas no desejo ou em paixões criadas artificialmente para legitimarem as relações carnais que eventualmente são produto natural dos relacionamentos.
O que falta realmente é que homens em mulheres reformulem suas expectativas e forma de ver a relação a dois, qual é a minha sugestão?
O homem tem que abdicar da função de predador e ter coragem de expressar seus sentimentos. Atribuem o ato de chorar a fraqueza, eu discordo frontalmente. Hoje em dia tem que se ter muita coragem para chorar. Só uma pessoa muita corajosa enfrenta os sentimentos que tem e eventualmente chora por isso. O ser humano que chora não demonstra fraqueza e sim força de quem não tem medo de sentir. Fugir de suas emoções mais profundas é, em regra, fugir da parte que é mais essencial de si mesmo. De outro lado à mulher deveria aceitar que o desejo é algo natural do ser humano, não é feio nem errado e pode ser sentido em muitas circunstancias que não a ligação amorosa perfeita. Na verdade, o desejo pode vir das fontes mais inesperadas e até odiosas, martirizar-se por isso é tolice. O fato de desejarmos não implica necessariamente a entrega ao desejo. Só se deve entregar-se ao desejo, quando este realmente for muito forte e em nosso íntimo valer a pena expressá-lo.
A reforma da ótica masculina e feminina quanto a expressão do desejo e do sentimento seria o primeiro passo para se viver uma "verdadeira história de amor".
Mas aí vem outro problema, um grande amor não se encontra em qualquer esquina, só felizardos amam mais de uma vez na vida, a maioria jamais vai conseguir realmente amar (justamente em face do problema base e outros tantos). Mas deixarei para outro momento o que seria um verdadeiro amor.
ufa! cansei...

Adriano Cabral