Denise teve uma dolorosa e difícil separação há menos de seis meses; Marcos ainda não completou um ano de luto da morte da mãe; Guilherme e Maíra estão desempregados há quase um ano e sobrevivem de favores e trabalhos temporários; Tânia trabalha 60 horas por semana, mal vê os filhos e tem certeza que o marido a trai constantemente. O que todos eles têm em comum além das dores passadas, presentes e futuras? Denise acordou cedo, vestiu fantasia de bruxa, adornou os dois filhos de anjinhos; Marcos transformou-se em mulher e juntou-se a um grupo de amigos; Guilherme e Maira, sem fantasia, sem dinheiro, partiram a pé animados com os cinco filhos e Tânia, com toda pompa, com trajes de princesa árabe foi para o camarote mais caro, todos foram brincar o carnaval, todos estão no galo da madrugada.
Provavelmente os pouquíssimos leitores deste espaço deverão estar indignados, afinal, como aceitar que algumas pessoas saiam de suas casas para cair na folia de momo se elas não têm nem mesmo algum motivo para sorrir?
Observando de um plano mais geral é totalmente insano e absurdo que num país com mais de 40 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, índices de assassinatos em ritmo de grandes guerras, tantas carências, mazelas governamentais e insensatez corporativa privada, uma nação ouse separar um espaço para grandes festas, boa parte delas patrocinada pelo poder público. Afinal, não obstante a clareza do surreal que é este momento de carnaval, principalmente no nosso país, o que o justifica, porque ele ocorre?
Eu creio que para responder as indagações acima temos lançar reflexões no nosso dia a dia. Vamos pensar, será difícil encontrar pessoas que todos os dias carregam tantos ou mais desgostos da vida quanto ás pessoas citadas acima, contudo, seja em razão do trabalho, para preservar a família, para dar forças aos filhos ou amigos, ou ainda apenas para se inserir e manter status quo simula e modifica a expressão dos seus sentimentos? Eu creio que a resposta é não, não é difícil. Boa parte das pessoas, desde momento que acordam, vestem a fantasia, sem brilho, sem glamour, sem prêmio do júri. Estes seres sorriem, ficam bravos, até choram ou demonstram euforia simplesmente porque precisam disso para sobreviver, não porque sentem. E durante todo dia, ao carregar o fardo desta fantasia perene, não se ouve os sons dos clarins, nem tambores para dá o ritmo, leveza e alegria a jornada, há apenas o som mudo da vida.
Vamos mais longe, o próprio ser humano como tal, estuda, trabalha, faz política, cria religiões, partidos políticos, regras, leis, moral e tudo pra que fim? Para morrer. Ou melhor, para distrair-se e esquecer-se da própria mortalidade o ser humano inventa milhões de problemas, alguns reais e outros apenas criados artificialmente. Num truque burlesco vive pensando numa vida eterna, nada mais que um artifício para não encarar a própria finitude. Mas outra música de carnaval nos diz “Roda, roda e avisa que a vida é um sonho que vai terminar...”
E o folião, ao contrário de nós na nossa fantasia do dia a dia, não se ilude, ele sabe que está vivendo um “sonho feliz” de poucos dias que logo vai acabar. Talvez isto explique porque boa parte das antigas marchas de carnaval falava de saudade, de dor e do fim, porque enquanto pulam e sambam, eles sabem que a dura realidade os espera. “Vê, turbilhão desta vida passar. Vê, os delírios dos gritos de amor. Nessa orgia de som e de dor”.
O fantasiado que vive depois do carnaval, é tão louco que às vezes acredita que vive mesmo uma realidade.
Diante de tudo isso, vistam-se, vão às ruas, clubes, bares, ladeiras correndo atrás do bloco ou até mesmo do trio elétrico, enlouqueçam, mas ao menos neste período, cônscios da loucura, cientes que a alegria tem data marcada para acabar, numa lucidez rara que bem poderia ser aplicada no tétrico carnaval diário.
Vamos brincar sim, pois como dizia Getúlio Cavalcanti ás vezes brincar carnaval é a única coisa que faz da vida de muitos, algo singular e especial
“Não deixem não, que o bloco campeão, guarde no peito a dor de não cantar. Um bloco a mais é um sonho que se faz o pastoril da vida singular.”
E viva ao carnaval!
Letras de Músicas:
Turbilhão:
https://www.letras.mus.br/moacyr-franco/487500/
Roda e Avisa:
https://www.letras.mus.br/alceu-valenca/1318259/
Ùltimo Regresso:
By - Adriano Cabral