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domingo, 14 de março de 2010

Por que... Te amo!



Andei de bar em bar, de festa em festa, agredi, levei porrada e um dia me vi acordando na sarjeta num velho clichê, despertando com o beijo do cão vagabundo.

Deletei e-mails, fotos, postagens do blog. É claro que te expulsei do orkut, msn, icq... Mas não foi suficiente, acabei excluindo qualquer amigo em comum que um dia pudesse nos unir nesse mundo.

Joguei fora presentes, roupas, cartas e qualquer coisa que deixasse mais viva a tua lembrança...

Fiz terapia, reescrevi nossa história e transformei-te em vilão e hoje todos que andam comigo fazem coro pra me lembrar do  porque não devo nem recordar mais tua existência.

Mudei de cidade, mudarei de país, conheci novos amores, inventei tantos outros, e quase acreditei que te esqueci.

Desliguei meu telefone, vou mudar meu nome, vais acreditar até mesmo que morri
Cultivei a mágoa, o ódio e o desprezo e lembrei de todo desespero que contigo vivi.

Ignorei teus e-mails, cartas e apelos, não quero nem mais ouvir a mim.

Eu preciso reaprender a ser feliz.

by- Adriano Cabral

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

NOSSA VIDA É UM CARNAVAL


Denise teve uma dolorosa e difícil separação há menos de seis meses; Marcos ainda não completou um ano de luto da morte da mãe; Guilherme e Maíra estão desempregados há quase um ano e sobrevivem de favores e trabalhos temporários; Tânia trabalha 60 horas por semana, mal vê os filhos e tem certeza que o marido a trai constantemente. O que todos eles têm em comum além das dores passadas, presentes e futuras? Denise acordou cedo, vestiu fantasia de bruxa, adornou os dois filhos de anjinhos; Marcos transformou-se em mulher e juntou-se a um grupo de amigos; Guilherme e Maira, sem fantasia, sem dinheiro, partiram a pé animados com os cinco filhos e Tânia, com toda pompa, com trajes de princesa árabe foi para o camarote mais caro, todos foram brincar o carnaval, todos estão no galo da madrugada.
Provavelmente os pouquíssimos leitores deste espaço deverão estar indignados, afinal, como aceitar que algumas pessoas saiam de suas casas para cair na folia de momo se elas não têm nem mesmo algum motivo para sorrir?
      Observando de um plano mais geral é totalmente insano e absurdo que num país com mais de 40 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, índices de assassinatos em ritmo de grandes guerras, tantas carências, mazelas governamentais e insensatez corporativa privada, uma nação ouse separar um espaço para grandes festas, boa parte delas patrocinada pelo poder público. Afinal, não obstante a clareza do surreal que é este momento de carnaval, principalmente no nosso país, o que o justifica, porque ele ocorre?
Eu creio que para responder as indagações acima temos lançar reflexões no nosso dia a dia. Vamos pensar, será difícil encontrar pessoas que todos os dias carregam tantos ou mais desgostos da vida quanto ás pessoas citadas acima, contudo, seja em razão do trabalho, para preservar a família, para dar forças aos filhos ou amigos, ou ainda apenas para se inserir e manter status quo simula e modifica a expressão dos seus sentimentos? Eu creio que a resposta é não, não é difícil. Boa parte das pessoas, desde momento que acordam, vestem a fantasia, sem brilho, sem glamour, sem prêmio do júri. Estes seres sorriem, ficam bravos, até choram ou demonstram euforia simplesmente porque precisam disso para sobreviver, não porque sentem. E durante todo dia, ao carregar o fardo desta fantasia perene, não se ouve os sons dos clarins, nem tambores para dá o ritmo, leveza e alegria a jornada, há apenas o som mudo da vida.

      Vamos mais longe, o próprio ser humano como tal, estuda, trabalha, faz política, cria religiões, partidos políticos, regras, leis, moral e tudo pra que fim? Para morrer. Ou melhor, para distrair-se e esquecer-se da própria mortalidade o ser humano inventa milhões de problemas, alguns reais e outros apenas criados artificialmente. Num truque burlesco vive pensando numa vida eterna, nada mais que um artifício para não encarar a própria finitude. Mas outra música de carnaval nos diz “Roda, roda e avisa que a vida é um sonho que vai terminar...”
E o folião, ao contrário de nós na nossa fantasia do dia a dia, não se ilude, ele sabe que está vivendo um “sonho feliz” de poucos dias que logo vai acabar. Talvez isto explique porque boa parte das antigas marchas de carnaval falava de saudade, de dor e do fim, porque enquanto pulam e sambam, eles sabem que a dura realidade os espera. “Vê, turbilhão desta vida passar. Vê, os delírios dos gritos de amor. Nessa orgia de som e de dor”.

O fantasiado que vive depois do carnaval, é tão louco que às vezes acredita que vive mesmo uma realidade.

Diante de tudo isso, vistam-se, vão às ruas, clubes, bares, ladeiras correndo atrás do bloco ou até mesmo do trio elétrico, enlouqueçam, mas ao menos neste período, cônscios da loucura, cientes que a alegria tem data marcada para acabar, numa lucidez rara que bem poderia ser aplicada no tétrico carnaval diário.
Vamos brincar sim, pois como dizia Getúlio Cavalcanti ás vezes brincar carnaval é a única coisa que faz da vida de muitos, algo singular e especial

“Não deixem não, que o bloco campeão, guarde no peito a dor de não cantar. Um bloco a mais é um sonho que se faz o pastoril da vida singular.”

E viva ao carnaval!

Letras de Músicas:
Turbilhão:
https://www.letras.mus.br/moacyr-franco/487500/

Roda e Avisa:
https://www.letras.mus.br/alceu-valenca/1318259/

Ùltimo Regresso:

By - Adriano Cabral

domingo, 6 de dezembro de 2009

AMARO MORREU.



    
      Dr. Gustavo acordou sobressaltado com o barulho de alguém batendo na porta. Era a enfermeira comunicando a chegada de mais um paciente, olhou o relógio, eram duas da manhã. No meio tempo em que recobrou a consciência até chegar á maca, já topou com o paciente morto. O corpo era de um homem com cerca de vinte e cinco anos, estava de bermuda surrada, camiseta e sandálias havaianas. Não portava nenhum documento, fora vítima de atropelamento.

- Deve ter sido algum pinguço que não soube atravessar a rua, falou com desdém o doutor para enfermeira, esta, começou subitamente a chorar. Ta maluca mulher, agora vamos chorar pelos cachaceiros que morrem no plantão? Dito isto, a enfermeira estendeu-lhe um saco plástico, e disse entre soluços que era do defunto. Estupefato com a atitude da colega, Gustavo olhou o conteúdo do pacote: fraldas descartáveis.
Diante daquilo, o doutor tornou-se sério, deu a volta e caminhou em silêncio para o repouso. Talvez se ainda houve lágrimas naquelas pálpebras tão fatigadas de chagas e desgraças humanas do dia-a-dia, talvez ele chorasse.

      Assim como o personagem que ilustra a introdução deste texto, ontem, não sei bem que horas, Amaro morreu vítima de atropelamento. Ligaram-me três vezes para informarem do óbito ou para dar detalhes do funeral. Ao telefone, cada uma expressava um espanto, um constrangimento e um terror. Eu, como quase todo ser humano normal, não sabia muito bem o que dizer para meus interlocutores muito mais próximos ao homem que até antes de ontem existia.
Mas Amaro não existe mais, nem o chamam mais pelo nome, segundo Mônica, uma das que me ligou e reconheceu o amigo de faculdade, o policial e todos ao redor do defunto chamavam-no agora de "o corpo".
Amaro era um homem grave, voz contida, olhar duro, mas sempre educado desde o trajar, andar e falar. Tinha mais ou menos trinta anos, não sei ao certo. Só sei dessas poucas características e que foi meu aluno, sim, meu aluno. Mas confesso, um pouco constrangido, que geralmente ao ouvir notícias fúnebres as trato com certa indiferença. Coração duro, talvez para se proteger da dor infinita diante do fim. Mas neste caso, a notícia de sua morte automaticamente me pôs no lugar de seus amigos, parentes, amores, filhos e toda sorte de pessoas que ficarão órfãs a partir deste dia, e foi inevitável a emoção tomar conta de minha mente tão fatigada da desgraça e das chagas humanas do dia-a-dia.
A morte foi violenta, provavelmente Amaro será levado ao IML local e seu corpo será examinado. Os amigos trocarão histórias, alguns até sorrirão para disfarçar a dor relembrando momentos divertidos do passado. As lágrimas mais abundantes serão dos parentes. E durante muito tempo ele será relembrado até que, também, todos os seus conhecidos sumirão da face da terra.
É isso, Amaro morreu. Foi arrancado da terra, sem direito a recurso, discurso ou protesto, desapareceu. Agora é só um corpo inerte.
      Mas assim como o rapaz, pai de primeira viagem que saiu orgulhoso e apressado no meio da madrugada para comprar fraldas para o filho, Amaro deixou sua marca na terra, e se há realmente um gosto Amargo nos que ficaram, há sim a pungente lembrança de sua doçura que envolveu seus entes queridos.

By Adriano Cabral.