segunda-feira, 15 de junho de 2026

E Por falar em Namorados 3

 

O despertador soou às oito. Ela não precisava dele, já estava acordada.

Camila ficou parada olhando o teto por um instante antes de sorrir — não para ninguém, apenas para o teto mesmo, que não sabia o que fazer com aquele sorriso e ficou ali, impassível, cumprindo sua função de teto. Ela balançou as pernas para fora da cama com uma leveza que, para quem a conhecesse, era suspeita. Camila não tinha esse tipo de leveza às oito da manhã. Tinha em outras horas. Mas não às oito.

Mas hoje era diferente.

O celular vibrou na mesinha. Ela pegou, leu, e fez aquele sorriso — o grande, o de canto de boca, o de quem recebe uma notícia muito boa. Pousou o aparelho devagar, como se a mensagem ainda estivesse dentro dele e pudesse quebrar.

O banheiro foi convocado para uma sessão de higiene que levou o dobro do tempo habitual. Não porque houvesse algo extraordinário a fazer — é que tudo foi feito com uma atenção incomum. O creme hidratante que normalmente era aplicado às pressas recebeu hoje uma dedicação quase artesanal. O cabelo, castanho escuro e comprido, foi escovado várias vezes além do necessário. E quando ela se deparou com o espelho — aquele momento de negociação que todas as mulheres conhecem bem — não houve negociação. Apenas o reconhecimento tranquilo de alguém que hoje não precisava brigar com nada no próprio reflexo.

Porque Camila era daquelas pessoas que têm o inconveniente de ser bonita sem saber ao certo o que fazer com isso. Os olhos verdes, que a depender da luz podiam parecer azuis ou até âmbar, tinham esse hábito deselegante de serem a primeira coisa que qualquer pessoa notava. Ela nunca percebeu isso. Ou fingia muito bem que não percebia, o que na prática dá no mesmo. Tinha uns vinte e poucos anos — aquela fase em que a juventude ainda não cobrou passagem — e se vestiu com a despreocupação calculada que só essa idade consegue: blusa simples, jeans, um tênis branco que claramente não era simples mas que fingia ser.

Arrumou o apartamento num ritmo que não era de limpeza, era de direção de arte. Moveu um vaso. Acendeu uma vela. Inclinou um porta-retrato. Recuou dois metros, cruzou os braços, avaliou, inclinou o porta-retrato de volta à posição original. Satisfeita.

A campainha tocou.

Ela não correu. Foi com o passo de quem sabe o que há do outro lado da porta e ensaiou a expressão de surpresa sem perceber que ensaiou.

Marcos estava lá. Terno azul-marinho, o tipo de roupa que diz "me esforcei hoje" sem precisar gritar. No braço esquerdo, um buquê de rosas vermelhas — doze, aquele número que alguém em algum momento da história decidiu que representa o amor e que desde então nenhum florista questiona. Na outra mão, uma pequena caixinha dourada com laço.

— Feliz dia dos namorados — ele disse, mas a voz saiu mais grave do que planejou, daquele jeito que acontece quando as palavras não cabem na emoção que as produziu.

Ela não disse nada. Abriu mais a porta, como quem abre espaço não só no apartamento mas em algo maior. Os olhos verdes-às-vezes-azuis piscaram uma vez. Só uma. Era pouca coisa. Era tudo.

Recebeu as flores com as duas mãos — e quem estivesse prestando atenção, Marcos estava muito, teria visto os dedos apertarem levemente o celofane antes de relaxar, como se precisasse confirmar que era real. O sorriso que veio depois não começou pelos lábios. Começou pelos olhos, desceu devagar, passou pelas maçãs do rosto e só chegou à boca quando já não havia como segurá-lo. Ela virou o rosto de lado, aquele movimento involuntário de quem não quer ser pego sentindo demais.

Ele entrou. Ela caminhou até a mesa com as rosas na frente do corpo como se fossem um escudo contra a própria emoção. Pôs as flores numa jarra. Abriu a caixinha dourada com uma delicadeza de quem teme que o conteúdo desapareça se abrir rápido demais. Era um perfume. Daquele tipo de perfume cujo nome ela conhecia mas nunca compraria para si mesma — haveria sempre alguma conta mais urgente do que um perfume importado.

— Marcos...

— Não precisa.

— Precisa sim. — Ela respirou fundo, virou para ele com aquela seriedade suave que às vezes é mais difícil de encarar do que a raiva. — Eu não comprei nada pra você.

Ele ficou quieto por um segundo. Depois sorriu. Não o sorriso de quem tem resposta pronta, mas o outro — o que demora mais para aparecer e por isso é mais verdadeiro.

Caminhou até ela, envolveu-a nos braços com aquela familiaridade de quem já mapeou onde a outra pessoa existe no espaço, e disse, baixo:

— O único presente que eu quero, que eu sonho... está na minha frente.

Amigos, às vezes os clichês funcionam. O que posso dizer?

Ela não respondeu com palavras. O beijo que veio depois disse tudo que precisava ser dito — e algumas coisas que provavelmente não precisavam mas disseram assim mesmo. Foi um daqueles beijos que começam devagar e não têm pressa nenhuma de acabar, o tipo que embaralha a noção de tempo e faz esquecer que havia uma lista de tarefas para o dia.

A lista foi completamente ignorada.

O que se seguiu não descreverei em detalhes, pois não sou romancista — já estabelecemos isso — e porque o sofá está presente nessa narrativa de um jeito que claramente extrapola seu manual técnico. Nenhuma cama foi necessária, o que é simultaneamente uma informação irrelevante e absolutamente relevante. Em determinado momento Marcos acertou o controle remoto com o cotovelo e ligou o canal de notícias, e os dois ficaram uns trinta segundos completamente imóveis olhando para a âncora entusiasmada antes de explodirem em gargalhada. Digamos que o clima foi de alegria e descoberta. Digamos assim e sigamos em frente.

O café da manhã veio depois, improvisado e demorado, que é a melhor das combinações. Torradas um pouco queimadas, café forte demais, uma banana que estava ali na fruteira e entrou na equação sem ser convidada. Comeram em silêncio às vezes — o silêncio bom, aquele que não precisa de preenchimento.

Foram para a cama ver uma série. Daquelas séries bobas que ninguém admite assistir mas todo mundo assiste — com personagens que tomam decisões idiotas e reviravoltas que todo mundo prevê e mesmo assim funcionam. Ela com a cabeça no ombro dele, ele com os dedos distraídos no cabelo dela. Comentavam as cenas com a intimidade de quem já construiu referências comuns sem perceber quando isso aconteceu.

O almoço foi ridículo e delicioso. Ele deu a primeira garfada na boca dela com uma solenidade cômica. Ela devolveu e acertou no queixo. Houve muito riso. Houve comida no lugar errado. Houve mais riso ainda.

Foi Marcos quem ficou sério primeiro.

Não de repente. Foi aquela seriedade que chega devagar, quando a tarde começa a anunciar que o dia que você não queria que acabasse vai acabar do mesmo jeito.

— Tenho que ir — ele disse.

Ela não respondeu imediatamente. Olhou para a janela. Lá fora o mundo continuava, sem nenhum respeito às agendas internas de ninguém.

— Eu sei — ela disse. E depois, mais baixo: — Vai. Eu fico aqui com você.

Ele a abraçou por último. Forte, daquele jeito que tenta guardar a outra pessoa num lugar seguro antes de partir. Ela enterrou o rosto no ombro dele por um segundo apenas. Um segundo que vale por mais.

A porta fechou.

Ela ficou parada na sala por um tempo. As rosas na jarra. O perfume na mesa. O controle remoto no lugar errado. Pegou um dos travesseiros do sofá, segurou por um instante contra o peito, depois o pousou com aquela delicadeza de quem não quer estragar nada.

Tomou banho. Demorado. Daqueles que não são sobre higiene.

Saiu do banheiro, voltou ao espelho. E desta vez foi diferente. O jeans ficou no cabide, entrou um vestido — florido, leve, daquele comprimento que some acima do joelho. O batom trocou de cor, mais rosinha, mais suave. O cabelo, que de manhã caíra solto sobre os ombros, recebeu agora um laço pequeno que o prendia de lado. Ninguém teria dito que era a mesma mulher. Ou quase ninguém.

O apartamento, um último olhar — flores na jarra, a vela ainda acesa, tudo em ordem.

O celular vibrou.

Ela pegou, leu, e fez aquele sorriso — o grande, o de canto de boca, o de quem recebe uma notícia muito boa.

A campainha tocou.

Ela respirou fundo. Abriu a porta com o mesmo brilho nos olhos verdes. A mesma leveza calculada nos passos.

O homem era diferente. Mais velho. Paletó um pouco largo nos ombros. No braço, um buquê comprado às pressas numa floricultura de posto de gasolina, daquele jeito que grita "lembrei em cima da hora" em qualquer idioma.

Ela recebeu as flores com as duas mãos. Os dedos apertaram levemente o celofane, como quem precisa confirmar que é real.

E sorriu — os olhos primeiro, depois a boca.

— Feliz dia dos namorados — ela disse.

A vela ainda estava acesa.

by — Adriano Cabral