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sábado, 28 de maio de 2011
Homossexualismo Segundo Frei Betto
As vezes a única coisa que podemos fazer é reproduzir textualmente as palavras de outra pessoa. Logo, abaixo vai o texto de Frei Beto, autor que despertou em mim o prazer de estudar história, neste texto abordando o tema Homossexualismo. Vale a pena conferir. Opinem.
Frei BETO:
É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos. No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”…).
Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc). No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países-membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.
A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.
Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hetero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.
São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.
A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama…).
Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?
Ora, direis, ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.
Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão;e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?
Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.
FREI BETTO, Frade Dominicano, nasceu em Belo Horizonte, em 25 de agosto de 1944, foi preso duas vezes durante a ditadura e é um escritor premiado internacionalmente, sua obra mais lida: BATISMO DE SANGUE. Grande pensador da Teologia da Libertação.
terça-feira, 24 de maio de 2011
A Doutoranda e O Assaltante
Meu nome é Almir, trabalhava como embalador numa loja de departamentos até um ano atrás, quando a maldita gerente me despediu sem dizer porque. A megera nem assinou minha carteira de trabalho.
Tenho três filhos pra sustentar e uma mulher que enche o saco me chamando de vagabundo. Vivo de bicos e quando a coisa aperta amigo, parto para ignorância e pratico, como poderei dizer: exproriação social de bens da burguesia desalmada em nome da revolução que se passa em meu estômago e de minha família. Em outra palavras, faço furtos e roubos. Apesar de não ser uma atividade reconhecida por lei, ela dá muito trabalho e nem sempre compensa os riscos. Tem muito malandro andando armado pra se "defender" (como se dinheiro valesse uma vida) e os policias atiram pra depois perguntar. Outro problema é o da renda, não é boa, tornar-se pior ainda quando se tem um sócio. Luís, meu vizinnho e amigo, tá sempre disposto a empreender. Evitamos ao máximo violência, por isso só miramos em mulheres e idosos, não reagem, não dão problemas e às vezes são tão educados. Vale a pena trabalhar com gente assim. Por causa de nosso profissionalismo nunca precisamos dar um só tiro.
No entanto, minha paz quase foi embora numa preguiçosa manhã de domingo. Eram cerca de cinco da manhã quando eu e Luís retornávamos de uma noite de trabalho árduo no calçadão de Boa Viagem. Estávamos a pé, não tinha buzão e infelizmente não podíamos roubar um carro, nenhum dos dois sabia dirigir, já tava de saco cheio quando as vítimas perguntavam: Não vai levar o carro? A gente não podia responder que não sabíamos dirigir né? (Iríamos fazer essa capacitação no mês seguinte). E lá estávamos passando por um bairro vizinho de classe média quando nos deparamos com um automóvel estacionado em frente a uma casa, a mala estava aberta e uma moça bonita estava parada de pé, em frente a porta do carona segurando um camalhaço de papel. Um rapaz com cara de abestalhado ia e vinha retirando a bagagem, pareciam retornar de viagem. Luís olhou-me com aquele olhar, eu respondi:
Tenho três filhos pra sustentar e uma mulher que enche o saco me chamando de vagabundo. Vivo de bicos e quando a coisa aperta amigo, parto para ignorância e pratico, como poderei dizer: exproriação social de bens da burguesia desalmada em nome da revolução que se passa em meu estômago e de minha família. Em outra palavras, faço furtos e roubos. Apesar de não ser uma atividade reconhecida por lei, ela dá muito trabalho e nem sempre compensa os riscos. Tem muito malandro andando armado pra se "defender" (como se dinheiro valesse uma vida) e os policias atiram pra depois perguntar. Outro problema é o da renda, não é boa, tornar-se pior ainda quando se tem um sócio. Luís, meu vizinnho e amigo, tá sempre disposto a empreender. Evitamos ao máximo violência, por isso só miramos em mulheres e idosos, não reagem, não dão problemas e às vezes são tão educados. Vale a pena trabalhar com gente assim. Por causa de nosso profissionalismo nunca precisamos dar um só tiro.
No entanto, minha paz quase foi embora numa preguiçosa manhã de domingo. Eram cerca de cinco da manhã quando eu e Luís retornávamos de uma noite de trabalho árduo no calçadão de Boa Viagem. Estávamos a pé, não tinha buzão e infelizmente não podíamos roubar um carro, nenhum dos dois sabia dirigir, já tava de saco cheio quando as vítimas perguntavam: Não vai levar o carro? A gente não podia responder que não sabíamos dirigir né? (Iríamos fazer essa capacitação no mês seguinte). E lá estávamos passando por um bairro vizinho de classe média quando nos deparamos com um automóvel estacionado em frente a uma casa, a mala estava aberta e uma moça bonita estava parada de pé, em frente a porta do carona segurando um camalhaço de papel. Um rapaz com cara de abestalhado ia e vinha retirando a bagagem, pareciam retornar de viagem. Luís olhou-me com aquele olhar, eu respondi:
- Não, o turno acabou.
- Mas véi, eles estão implorando por isso, vai ser muito fácil.
Rua deserta, cinco da manhã, uma patricinha e um babacão, o que poderia dar errado?
- Vamos lá, seguindo o procedimento. Atrevesse a rua e venha por trás, irei pela frente.
Bem, como sempre, fui pela frente e anunciei o assalto aos gritos ( a gente tem que assustar ao máximo) a garota tomou tamanho susto que jogou os papéis para cima que voaram se espalhando rapidamente. Inusitadamente ela parecia tentar segurar as folhas de papel no ar, mas ao ouvir minha voz ordenando-a que ficasse quieta, ela estacou. O rapaz ja estava como estátua. Pedimos o de sempre:Celular, bolsa, carteiras recheadas de dinheiro. Eles não reagiram e entregaram tudo caladinhos. Uma maravilha, parecia uma ótima forma de começar o domingo, foi aí que o maldito Luís notou que havia um notebook no banco de trás e resolveu pegá-lo foi quando a moça gritou.
-Isso não, você não pode levar! Ao ouvir isso eu e meu companheiro ficamos atônitos, sorri por dentro, sem demonstrar, apontei a arma delicadamente para cabeça da garota e disse:
-Moça se você tem amor a sua vida, cale a boca, vamos levar o que quisermos e fim de papo. Falei isso com toda cara de mau que Deus me deu, no entanto ela retorquiu firmemente:
-Não! Vocês não vão levar meu notebook. Neste momento, Luís começou a tremer com a arma na mão, eu imediatamente dei uma rasteira no babaca que estava com ela, engatilhei o revólver e gritei que se ela tivesse o mínimo de amor a vida dela e do bobão ali, que ela não abrisse mais o bico.
A garota veio em minha direção devagar, e falou, com com a voz trêmula, mas demonstrando determinação de aço, falou que podíamos atirar, só assim poderíamos levar seu computador. A essa altura o rapaz chorava implorando pra nós levássemos tudo, que a Rose estava louca. E deveria estar mesmo, porque para espanto de todos, ela saltou sobre Luís, arrancou o notebook e abraçou-o como a um filho. Apavorado, Luís caíu no chão, apontou a arma para moça e apertou o gatilho, não deu tempo de pedir pra ele não fazer isso. Mas como diz o ditado, Deus ajuda quem cedo madruga. Luís era relaxado demais e sempre esquecia de carregar a arma. A moça maluca, ainda estava viva. Percebi que a situação era ruim e poderia ficar pior, mas não me daria ao luxo de abrir mão daquele notebook. Saltei pra cima da maluca com arma em punho e falei baixinho:
-Moça, qual é seu problema? Você quer mesmo morrer? Me diga porra! Você quer morrer? Ela permaneceu calada, segurando mais firme o computador nos braços. Tentei puxá-lo mais em vão. Engatilhei a arma, minha paciência estava acabando, indaguei novamente se ela queria morrer.
-Olha, você quer me estuprar? Que mania idiota dessa mulherada, porque todas acham que assaltantes são necessariamente estupradores, fiquei ofendido, mas imaginei que, como instrumento de terror poderia funciona,r então respondi que sim, se ela não me entregasse o computador iria estrupá-la dentro da casa dela. O que ela veio a dizer em seguida jamais vou esquecer:
-Vamos fazer o seguinte então, você me estupra e deixa o computador comigo tá bom? Ela falou isso entre lágrimas, soluçando. Comecei a achar que estava vivendo uma história de Almodovar(certa vez roubei uma caixa com a coleção completa dos filmes e virei fã). Não tinha como responder educamente a infame proposta. Mas outra questão ficou martelando dentro de mim era motivo da atitude da moça. Então perguntei porque aquele computador valia mais que a vida do seu amigo e a sua honra.Ela chorava muito, mas respondeu:
-Minha tese moço, se eu perde-la eu prefiro morrer. Mandei o bestalhão do companheiro dela calar a boca, ele estava clamando o tempo todo pra não matarmos ninguém e continuei conversando com a louca. Afinal o que é uma tese? Então ela explicou em poucas palavras os longos anos que gastou para fazer um trabalho chamado tese de doutorado, as cobranças de seu orientador que vivia a atormentá-la, que a cópia digitada voôu de suas mãos quando anunciei o assalto, que ela não tinha mais nenhuma a não ser a que estava no notebook.O tempo passava, mas acabei me comovendo com a menina, afinal, era tudo coisa de estudo e do orientador dela, que pelo visto, era pior que minha antiga gerente.
-Então se a gente imprimir tá tudo okey pra você?
-Eu não tenho impressora, e meu Pen Drive esqueci no hotel, atrasei o pagamento da internet e não tenho conexão. Perguntei pra ela que diabos era esse drive, ela me explicou e tive uma idéia. Mandei todo mundo entrar na casa, um carro ou outro já passava na rua. Lá dentro chamei Luís que até então estava calado, sem saber o que dizer ou fazer, peguei com ele a mochila onde estava o fruto de nossa noite e encontrei um pequeno objeto, mostrei pra moça, ela sorriu e confirmou que não era um pen Drive mas serviria pra copiar. Todos estavam sentados na mesma mesa, o clima ficou tenso quando o tal sistema não quis reinicializar, depois da terceira tentativa para felicidade geral, ela consegiu copiar tudo. Quando eu já estava na porta da casa gelei ao ouvir a voz da moça que pediu pra esperar. Contudo para meu espanto, ela veio em minha direção e me deu um abraço:
-Obrigada, você é o ladrão mais legal do Brasil.
-De nada moça, faça muitas cópias dessa tese pra não passar risco de vida de novo viu?
-Tá. Boa Sorte!
Eu achava que minha vida tava díficil, não quero nem imaginar como é ser uma doutoranda.
(Inspirado em fatos reias)
by- Adriano Cabral
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Supremo Tribunal Federal Reconhece União Homoafetiva
Em cada época um povo ou cultura erigem seus "manuais da vida", estes são um conjunto de preceitos morais, religiosos e legais que determinam como alguém deve se comportar para ser "feliz". Na verdade tais manuais, em grande parte de seu conteúdo, apenas tentam preservar o status até então existente impedindo qualquer comportamento autônomo que destoe ou fira o que em um dado momento seria um comportamento normal.
As relações homoafetivas eram toleradas na Roma e no Egito antigo. Na Grécia antiga eram enaltecidas e até mesmo as únicas dignas de serem consideradas amor ou ainda sinônimo de virilidade.(vide Aristofante no livro O Banquete, atribuído a Platão e o invencível exercito de Tebas, formado exclusivamente por casais homossexuais), não obstante, tem sido um grande tabu em quase todas as sociedades, em todas as épocas sem que a prática homoafetiva nunca tenha deixado de existir.
Devido as restrições morais, pseudo-religiosas, e até legais, as pessoas que estabelecem relações homoafetivas são vítimas do mais cruel preconceito, expresso através de piadas, assédio moral, e não raro, ódio que explode em violência extrema levando a morte. Mas afinal porque punir alguém que escolhe amar outra pessoa? Pior ainda, como muitos acreditam, punir alguém que é genéticamente destinado a amar apenas um determinado gênero idêntico ao seu? Resposta lógica adequada não há, restam apenas dogmas sem sentido e ódio que não aceitam argumentos.
A Constituição Federal de 1988 já propagava o direito a igualdade, liberdade sem distinção, e fundava-se no princípio basilar de todas as Constituições ocidentais: Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. Foi fundado em princípios previstos há mais de vinte anos que o STF (Supremo Tribunal Federal) reconheceu a união estável Homoafetiva nos mesmos termos da relação fruto de uma união heterossexual. Caso, talvez até raro, onde a justiça tardou mas não falhou.
O preconceito provavelmente continuará, a intolerância ainda estará presente em muitos lugares, e sem dúvida, alguns dogmas previstos em mais que velhos testamentos ainda perdurarão, mas o dia 05/05/2011 será considerado um marco e um grande passo para que o ser humano seja efetivamente livre para amar.
By- Adriano Cabral
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Mate Alguém, Fique Famoso e Vire Filme
Há um filme que recomendo a todas as pessoas que tiverem paciência para ler este blog:Assassinos por Natureza (Natural Born Killers). Este filme roteirizado pelo até então desconhecido Quentim Tarantino e Dirigido por Oliver Stone, aparentemente pode parecer apenas uma ode a violência gratuita a transformando quase numa "viagem psicodélica". No entanto e expectador atento notará que trata-se de um filme que mostra as vísceras da grande imprensa que vinha desde aquela época transformando a violência num grande espetáculo, consequentemente, tornando assassinos grandes astros. Na película em questão os personagens Mickey(Woody Harrelson) e Mallory(Juliette Lewis)são um casal apaixonado um pelo outro e literalmente loucos pela fama e violência (não necessariamente na mesma ordem). Durante o filme eles matam várias pessoas, sempre tomando o "cuidado" de deixar ao menos um vivo para "contar a história". Neste interim tornam-se astros, principalmente em função de um programa de TV "Maníacos Americanos" ancorado pelo jornalista inescrupuloso Wayne Gale (Robert Downey Jr muito antes de sonhar em ser o homem de ferro). No decorrer desta obra todos tentam tirar "vantagem" dos cruéis criminosos, dentre politicos, policiais, redes de tv e até mesmo o diretor do presídio onde num dado momento eles são confinados. Apesar de exagerada e não raro nauseante,a obra em questão toca na ferida há muito aberta nos Estados Unidos onde, não raro, pessoas tornam-se assassinas para ganhar fama, prestígio, eventualmente dinheiro e poder virar "filme", ser "modelo" para muitos, o maior íncone deles é justamente o assassino Charles Manson que fundou uma seita com adeptos em todo mundo.
O Brasil finalmente esta entrando nesta "moda" com o espetáculo criado em Realengo bairro da cidade Rio de Janeiro. O brutal crime que tirou a vida de várias crianças tornou-se um episódio sinistramente mais monstruoso onde políticos, policiais, "profissionais de saúde mental", especialistas de toda sorte e principalmente boa parte dos meios de comunicação que exploram ao máximo o fato a fim de tirar vantagem de alguma forma. De todos eles a grande imprensa televisiva sem dúvida demonstrou a mais completa falta de compromisso com a informação e sua sede pela audiência, bombardeando seus telespectadores exaustivamente com flashs de parentes chorando, entrevistando sem dó nem piedade as crianças sobreviventes ou pior ainda, indagando aos parentes das vítimas as famosas perguntas de: O que você sente agora ou o que você deseja neste momento...
E a coroação máxima da falta de respeito foi a veiculação da entrevista com o assassino em rede nacional. Não obstante ser de domínio público o nome do meliante não me darei o trabalho de nomeá-lo, afinal, segundo consta de cartas e vídeos desta criatura nefasta, ao cometer o hediondo crime, o mesmo tinha intenção de com isso obter fama, ser ouvido e servir como "modelo". Isso está sendo possível graças a ampla divulgação pela grande imprensa de vídeos e cartas do assassino. E os resultados já vem surgindo, segundo foi noticiado na imprensa (leia a notícia aqui) o assassino de Realengo já está ganhando páginas de apoio nas redes sociais e inúmeros fãs. Enquanto isso o Sargento que no cumprimento de seu dever deteve o criminoso tem pequenas notas na grande imprensa. Se tivesse o mínimo de "sensibilidade" e respeito, bastava noticiar o fato, sem a necessidade de repetição odiosa, onde se renova não só a dor das centenas de pesssoas que conheciam as vitimas, mas também evitando-se criar o clima de histeria coletiva que existe no nomento em boa parte do Brasil sobretudo nas crianças, algumas aterrorizadas e temendo ir a escola. Não há função nem interesse de se saber a história, idéias, vídeos nem tampouco as "razões" insanas que levaram o criminoso a cometer seu ato, até porque este por si só é injustificável.
Nos Estados Unidos, criminosos agora estão sendo proibidos de explorarem economicamente seus crimes através de livros e filmes, inclusive quando há algo neste sentido, o dinheiro em questão vai para as vítimas.
Particularmente não assisto programas policiais e pulo as notícias sobre o assunto quando leio jornais. Todos estamos sujeito ao crime lendo ou não, mas podemos optar em não alimentar essa parte da "imprensa" que explora e vive da miséria alheia.
Espero que o Brasil não se torne um "celeiro" de assassinos em busca de fama e que cada vez mais fiquemos atentos ao que é efetivamente notícia e repudiar a espetacularização da informação.
quarta-feira, 30 de março de 2011
O Melhor Texto de 2010
No ano passado este espaço publicou mais de cinquenta textos, dentre eles os dez mais lidos foram lançados em votação para que fosse escolhido o melhor texto de 2010. Curiosamente, assim como aconteceu no ano passado, a escolha recaíu em um texto que tem um grande valor pessoal pra mim.Para entender isto vou contar-lhes o que deu origem ao texto vencedor. Eu ainda era casado, minha então esposa era professora de língua portuguesa, tínhamos um filho que aos seis anos de idade já tinha na prateleira mais de cem livrinhos infantis. Sou aquele tipo de chato que não gosta de datas comemorativas como dia dos pais e aniversário, então até pra não gastar muito, sempre pedia para minha antiga companheira "dar-me" presentes que na verdade seriam do meu filho. Daquela vez havia pedido o jogo para PC das Crônicas de Narnia como presente do dia dos pais. Qual foi o meu espanto quando por erro ela comprou a coleção encardernada do livro de mesmo nome. Mesmo achando muito difícil, eu e minha antiga companheira nos alternamos em leituras conjuntas com nosso pequeno afim de inspirá-lo a ler o volumoso livro sozinho. Por mais que tentassemos, não conseguiamos seduzir nosso filho a ler um livro com mais de setecentas páginas e sem nenhuma gravura. Foi aí que tive uma idéia maluca. Entrei na internet, criei um site (na verdade deveria ser um blog, que ainda esta no ar aqui) que prometia "o melhor presente que os pais possam comprar" para a pessoa que primeiro terminasse todas as crônicas do mundo Narniano e o último lugar ficaria preso em narnia para sempre. Para completar meu plano criei uma lista com cerca de cinquenta nomes que disputariam o prêmio. Na lista inseri meu nome, da minha ex companheira e de nosso filho. Informado do concurso, o menino ficou num misto de euforia e medo, mas topou o "desafio". De repente nossso até então desinteressado leitor de livros sem "desenhos" começou a ler por horas a fio. As vezes chegando a avançar mais de 50 páginas num dia, o que é sem dúvida excepcional para uma criança daquela idade. Foram sete meses de leitura, quando sua dedicação esmorecia eu mudava a posição dele para os últimos lugares no site, ou ainda, inventava debates entre os concorrentes, com direito a provocações que mexiam com os brios do menino e faziam-no retomar a leitura (risos). Ao final, mesmo ele "terminando em segundo lugar" (afinal, não queríamos criar um filho presunçoso) nós demos o melhor presente que pudemos comprar. Mas o que talvez nosso filho até hoje não tenha percebido, é que o melhor presente do mundo fomos nós que recebemos quando há quase doze anos ele(Completa doze dia 06/04)nasceu e com sua vinda nós repensamos o sentido da vida e finalmente compreendemos o significado da palavra amor. E foi inspirado nele que escrevi a Lista de Narnia escolhido o melhor texto de 2010 por vocês leitores. Texto que no final das contas é uma declaração de amor a leitura e sobretudo de amor ao meu filho. Te amo muito!
Leia a Lista de Narnia aqui.. A propósito, há no blog um texto escrito pelo meu filho, O Coração Denunciador, quer conferir, leia aqui. E aguardem que ele tem um projeto de escrever um livro inspirado em mitologia nórdica ou africana. (menino levado). Um grande abraço a todos vocês.
domingo, 6 de março de 2011
Olinda - Aventura De Carnaval
Estávamos no final dos anos setenta. Eu, Tullios era uma criança cheia de medos e terrores. Um menino sonhador que vivia em um mundo que se encontrava entre o real e o imaginário. Vivíamos em uma casa modesta no bairro de Casa Amarela na cidade do Recife. Meus pais eram mais dois retirantes dos tantos que fugiram da eterna miséria do sertão nordestino, mas precisamente da Bahia. Como não podia deixar de ser, a família era grande, ao todo eram nove filhos, eu era a oitava cria da família Menezes. Ainda não tínhamos televisão.
Não obstante o grande rebanho, não passávamos fome. Necessidades sim, mas fome nunca. Meu pai ganhava muito bem em relação à média dos trabalhadores daqueles tempos, todos sempre diziam: Se papai tivesse menos filhos seríamos ricos. E cada um imaginava a família ideal, cortando uns irmãos aqui outro acolá. Mas o fato eram nove pessoas confinadas numa casa de três cômodos que no decorrer dos anos ganhou mais três quartos com a construção do primeiro andar.
Mas ainda estamos falando da casa de três cômodos onde num dos quartos dormiam meus quatro irmãos mais velhos, no outro, um pouco mais aconchegante, ficavam minhas três irmãs e por fim, no quarto maior ficavam os donos da casa. Eu dormia sozinho numa cama de campanha, na sala mesmo, enquanto minha irmã caçula, Denise dormia no berço com meus pais.
Todos os anos a família inteira se reunia para brincar o carnaval. Geralmente freqüentavam um clube que ficava pertinho de nossa casa. Eu odiava o carnaval. Minto, morria de medo. Arranjava mil desculpas para não ir para a folia e permanecer com minha tia Maria, que era evangélica e também ficava com a pequena Denise quando minha família saía.
Eram sempre dores de cabeça, no ouvido, no pé, uma moleza no corpo e tantos outros males que se é possível inventar. Entretanto, parecia que nenhum ardil funcionaria naquele ano. Minha mãe estava decidida a me levar nem que fosse de maca e tomando soro na veia.
Eu tinha ojeriza ao carnaval. Temia aquelas criaturas medonhas e sombrias que pulavam freneticamente sob um som muito alto e terrível aos ouvidos de qualquer ser humano. Aqueles cavaleiros fantasmagóricos com lanças em riste caminhando nas ruas, ameaçando os transeuntes. Toda aquela fantasia sinistra me punha a rechaçar qualquer idéia que me impelisse aquela festa. Só mais tarde compreendi que as criaturas medonhas nada mais eram que pessoas fantasiadas que pulavam de alegria ao som do frevo e que os cavaleiros de lança eram apenas os representantes do maracatu rural. Mas isso e muitas outras coisas só vim descobrir depois.
Enquanto isso, toda aquela atmosfera momesca me causava pavor. Ainda mais com o acréscimo que sempre ouvi de minha tia a dizer que aquela festa era patrocinada pelo próprio diabo.
Não parava de chorar. Implorava para não ir. Minha mãe tinha na face a mais sublime das irritações, como podia ser aquilo? Comprou-se até fantasia de Romeu, ficarás um brinco menino! Tantas pessoas sonham em brincar o carnaval aqui em Recife e principalmente em Olinda, e tu, o que me dizes? Ficas aí a inventar doenças? Não vês televisão filho? É o maior carnaval do mundo. Vais sim. E vais ficar um pão, tão fofinho que irás arranjar lá a tua Julieta. Pois é? Não adiantaram as chagas inventadas, os gritos histéricos, as lágrimas. Em pouco tempo estava lá, com armadura brilhante de papelão, uma capa, uma bainha sem espada e um belo e ridículo chapéu com uma pena no alto. Logo estava meus pais e toda ninhada da família Menezes esmagados dentro de um coletivo.
Entre os passageiros tínhamos uma índia e um vaqueiro sentados abraçados num banco de trás em altos beijos. Batman me espremia de um lado enquanto uma bela diaba, que estava ao eventualmente atracada ao que me parecia ser Deus e em seus constantes movimentos acabavam por me jogar pra cima do homem morcego. Confetes e serpentinas voavam a toda hora. No fundo do ônibus um grupo de bailarinas de barba e bigode cantavam desafinadamente músicas carnavalescas acompanhados por um batuque desvairado. Os instrumentos de percussão eram os bancos e o teto do ônibus que certo tempo depois veio a partir-se. O calor no coletivo a cada minuto aumentava. Era mais ou menos meio-dia e todas as janelas estavam cerradas com o intuito de se evitar que os passageiros tomassem banhos indesejáveis de lama e ovo podre que eram atirados em todos os carros pela multidão de gente adepta ao mela-mela. Um Bojudo lorde inglês em farrapos atropelou metade dos passageiros no momento em que correu pelo estreito corredor do ônibus a fim de saltar em sua parada. A fervura aumentava e o coletivo cada vez mais lotava. O suor escorria testa abaixo, o cheiro azedo daquela gente toda imprensada umas nas outras entrava forte nas minhas narinas. Cercado por todos os lados e sem ter onde me segurar acabei por abraçar as ancas da bela diabinha que vestia um pequeno trapo na parte de baixo de suas vestes. O contato com aquelas generosas carnes quentes e macias fez-me concluir que a viagem não era de todo má. Já bendizia o aperto do ônibus e começava a gostar do carnaval. A diaba ria do menino atracado a ela como fosse sua última tábua de salvação. Deus, piedoso como sempre, ao lado dela, também sorria, no final das contas, ele pensava provavelmente que as crianças daquela idade não sabem o que é lubricidade. Tinha razão o nosso senhor, até hoje não sei o significado dessa palavra. Mas que foi gostoso foi. Viva ao carnaval!
Mas tudo que é bom tem que acabar. Uma caixa de sabão em pó gigante onde havia escrito Homo-Sexual gritou que havíamos chegado. O coletivo defecou quase todos seus dejetos humanos na praça perto da prefeitura. E lá estávamos nós frente a frente com a folia, com aquela imensa multidão de gente que surgia de todos os lados, subiam e desciam as ladeiras, ou ficavam apenas parados a espera das agremiações carnavalescas ou a troças. As tais troças eram animadas desde orquestras completas ou apenas outro tipo de banda, composta de jovens e velhos batendo em latas vazias. Existe uma por sinal quem não tem instrumentos, jovens caminham pelas ruas com uma grande corda, gritando às 5 horas da manhã: ACORDA ou A CORDA, e os que despertam com a barulhada se juntam a troça barulhenta para acordar os foliões fatigados de farra. Mas o carnaval de Olinda tem de tudo, ou quase tudo. Era gente fantasiada de leite em pó, padre, velho, bebê, tinha até advogado com terno gravata e valise. Um maluco trajando roupas sociais passou tocando alucinadamente uma Alfaia.
Minha família queria subir primeiro à ladeira que levava a igreja da Sé de onde desciam e subiam as principais agremiações carnavalescas. Durante a subida, vendo o horror e o medo ainda estampado na minha face. Meu pai teve a idéia genial de comprar-me uma espada de madeira, com direito a bainha nova e tudo. Com ela em punho comecei a me sentir mais seguro. Era um cavaleiro no meio de demônios, mas agora estava preparado. Ai de quem me atacasse. Saltava de um lado para o outro brandindo a espada contra os inimigos, estes, achando engraçado o que para eles era uma brincadeira apenas sorriam ou simplesmente ignoravam. Aquela arma de brinquedo deu-me uma sensação de poder. Agora estaria pronto para enfrentar qualquer perigo. Era o próprio Amadis de Grécia ou de Gaula.
Exaustos, chegamos à igreja da Sé. A vista de lá é simplesmente espetacular. Vê-se dali toda cidade de Olinda, o porto do Recife apinhado de navios e o mar, o belo e vinoso mar que cerca as duas cidades irmãs. Mas podem ficar tranquilos, como não sou romancista, não tenho a capacidade que só eles possuem de descrever minuciosamente a majestosa visão que tomava conta de minhas, até então, pequenas e jovens retinas. Dito isto, continuarei. Posso?
Enquanto meus familiares comiam alguma coisa e esperavam alguma troça ou bloco passar, eu observava com curiosidade a grande igreja da Sé. Gigantesca aos meus olhos. Resolvi então que fazia-se necessário uma exploração daquele lugar cheio de mistérios. A igreja era cercada interiormente por várias árvores e um imenso jardim que para mim mais parecia uma floresta. Era impossível não ir lá. Por isso nem percebi quando minha família desceu aos pulos em direção à rua da Misericórdia atrás de Pitombeiras dos Quatro Cantos. Estava cego de curiosidade, galguei com certa dificuldade o pequeno muro do templo e saltei para dentro.
O pátio da igreja era só silêncio. Parecia-me que havia transposto um portal para outro mundo. A barulheira do carnaval sumira. Aquela floresta, aquele ermo, mexia com minhas estranhas, fazia arder meu peito, um convite para aventuras. Aquelas árvores frondosas, a solidão de seminário, a lembrança de velhas histórias que diziam que dentro das igrejas antigas se enterravam pessoas, levou-me a outra constatação: estava só, e, sobretudo perdido. O mundo começou a girar, o pavor profundo queimava minha alma, tudo ficava maior, agigantava e eu diminuía.
A minha coragem se fora tão veloz como surgira. Agora tudo era perigo, os sons agora que vinham do lado de fora agora podiam ser escutados, e eram aterradores. Gritos, só ouvia-se gritos e o farfalhar medonho de folhas, os galhos balançando como se quisessem ganhar vida tão somente para tomar a minha. Então, veio as torrentes de lágrimas que lavavam o a grama desperta, mas logo elas gelaram, pois o silêncio interior foi rompido por um grito feminino, distinto e próximo, um grito de desespero e súplica. Por trás deste grito havia algo mais aterrador, um poderoso ribombar de cascos. Não sei explicar o que se seguiu nos segundos seguintes, pois todo meu ser se petrificou de terror. Maldita hora que vim para carnaval, coisa do diabo, agora seria punido, nada mais adequado do que uma igreja. Naquele exato momento todos os pesadelos de menino medroso pareciam que iriam se concretizar, e da forma mais terrível do que a imaginada. Não me lembro como, só sei que no instante seguinte estava eu enfiado no meio do mato, de bruços, espreitando o muro e o portão da igreja. O barulho de cascos aumentava, já conseguia ver o demônio montado num corcel negro, que ao respirar, soltava pavorosas labaredas das narinas, e seu cavaleiro vinha reivindicar minha alma afim que eu vivesse todos os tormentos do inferno por toda eternidade. O barulho era tão intenso que pensei sentir meus tímpanos explodir. Gritei, mas da minha boca não ousou sair som algum, quando vi um vulto transpor num só salto, o muro que a pouco eu tivera dificuldade de galgar. Ao chegar do outro lado, que para minha desgraça era o meu lado, o vulto com formas femininas caiu no chão dolorosamente e então ele gritou, e três criaturas caíram do céu em cima dela. Eu permanecia escondido entre as folhagens, tremendo de medo, medo que me fazia delirar e ver as coisas, digamos, com certa “grandiosidade”. O fato que as três criaturas se preparavam para açoitar a pobre figura que, ainda no chão, implorava misericórdia. Enfiei os olhos na terra a fim de privar as minhas tão tenras retinas de espetáculo tão vil. Contudo, a curiosidade, doce irmã do medo, trouxe-me coragem, ao menos para erguer os olhos e mirar na menina que estava prestes a ser massacrada por aqueles demônios. Ao contemplar aqueles jovens olhos em chamas e as lágrimas a jorrarem miseravelmente daquelas lindas órbitas negras, fui de súbito tomado de uma bravura indômita. Era o próprio Amadis da Grécia, saltei com fúria sobre os demônios que estacaram espantados diante de minha audaciosa investida. Com espada em riste, brandi os mais violentos golpes que meus pequenos braços conseguiram. Ao sentir as primeiras bordoadas, o bando sumiu tão veloz que em pouco tempo já não se ouvia nem mais os uivos de dor, dor esta provocados pelas feridas, provavelmente mortais, causadas pelo meu terrível cutelo. Fiquei por alguns instantes estático no meio daquela selva, tremia muito, era medo, raiva e gáudio de mãos dadas, sentia o sangue correr em cada veia de meus braços, o vento balançava a minha capa, era um herói sem dúvida. Nascera para o ofício. Sir Tullios, o grande cavaleiro... Para completar a cena só faltava o maroto sorriso, como tal era impossível, veio o nervoso riso.
Essas importantes conjecturas foram quebradas por um gemido, ou lamúria? Sei lá, só sei que a menina ainda continuava de cabeça baixa, não sabia que tinha sido salva por mim. De repente, eu não sabia o que fazer. Afinal o que faziam os cavaleiros com as damas após resgatá-las?
— Por favor, não me bate!
Gaguejando um pouco, bem, confesso, gaguejava deveras, eu tentava ainda continuar com meu papel de herói, papel e a pose é claro, a pose era essencial, disse-lhe que não havia o que temer que ela estava salva. Olhando-a com mais cuidado percebi que ela também trajava roupas medievais. Eu continuava a dizer, agora com mais fluidez, que eu havia espantado os malfeitores que estavam a importunar a ... bem... bela dama. Esta última frase foi dita quase como uma pergunta, tinha dúvidas se constava no texto dos cavaleiros a tal “bela dama”. Ao escutar o “bela dama” ela sorriu. Amigos, ela sorriu. Isso não é qualquer coisa não, podes crer. Ela sorriu, e naquele momento nasci de novo. Não há exagero. Era como se eu ainda não tivesse existido antes de ver aquele sorriso, aqueles lábios, aquela luz. Foi um choque, um novo parto, mas agora prazeroso, onde eu via o mundo pela primeira vez, não com saudades do útero acolhedor e temeroso ao me deparar com o novo mundo, mas ansioso para conhecer e explorar todos os mistérios infindáveis que existe no seio da vida, a vida que começara ao ver aquele anjo sorrir, saía da escuridão para repousar meus olhos no brilho daquele sorriso que dizia tudo. Não havia mistérios a decifrar, não havia frio, mas apenas calor, calor amigos, inexplicável para aquele parto. E logo ao nascer percebi que naquele momento eu era outro, um Tullius reencarnado no mesmo corpo, mas a alma era outra, descobri naquele momento que até então havia vivido nas trevas, no umbral dos pecadores, e só agora, só ao vislumbra aquele sorriso, sorri, mudei e descobri a vida, ou talvez quem sabe tinha, como minha mãe previra, descobri a minha Julieta num dia de carnaval.
By- Adriano Cabral.
“Extraído do Romance Almas Perdidas”.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Memórias de Uma Outra Vida
- Eu te amo!
-Você sente isso agora?
-Sinto!
-Além de amor o que você sente neste instante?
-Sensação de liberdade! Ela esqueceu dizer que havia outra... Saudade, pois mesmo naquele momento quase sublime, onde aqueles amantes declararavam seu desejo e sentimento completamente despidos de quaisquer vestes do corpo ou da alma, ela sabia que estavam perto do fim. Contudo, se as palavras que saíam de sua boca ocultavam as que diziam seu coração, os olhos a denunciaram.
- O que você tem?
- Tenho medo! Muito medo! Ao ouvir isso ele fez uma pergunta, mas ele já sabia a verdadeira resposta.
- Do que você tem medo meu anjo?
- Medo de estragar tudo,sou muito imprevisível, acho que de repente posso por tudo a perder. Essas palavras foram ditas num tom melancólico onde as lágrimas se não se apresentaram completamente, se delinearam em seus olhos. Não foi por acaso que o rapaz começou a contar meias mentiras.
- Não tenha medo, você era imprevisível quando te conheci, agora você mudou, é uma pessoa melhor. Nós somos perfeitos juntos não?
- Sim, perfeitos!Disse ela num breve sorriso, verdade. Ele continuou a proferir as palavras certas, mas ele sabia que nos ouvidos errados, elas não se tornariam realidade.
- Pois bem, agora que você sente tudo isso, não acredito mais na Júlia imprevisível que opta por ser segunda opção, alternativa e sustentação de uma relação destroçada. Acho que finalmente você percebeu que há um mundo fora da caverna, um mundo cheio de desejo, afeto, luz e poesia. Ao ouvir isso ela assentiu mais triste ainda. Ele sorriu e a beijou, sabia que todo esforço era inútil, que mesmo as estrelas estão indelevelmente a caminho do crepúsculo.
Logo depois eles entoaram uma canção de amor, mas desta vez não foi apenas desejo que embalava aquela música, a melodia deles era a mais pura emoção gritada por suas peles, era ternura presente no olhar, nos beijos, nas carícias. Ela cantava seu nome sem cessar, como um refrão, numa voz que entoava um inexplicável tom de lascívia, amor e dor. Ele abraçava-a vigorosamente, como se quisesse impedir que escapasse de seus braços, ela dançava no mesmo ritmo e fincava as mãos e unhas em suas costas, nuca com tanta força que feria a carne que ela ansiava desesperadamente por não deixar. As respirações ofegantes juntamente com frêmito ranger da cama serviam como percussão.
Não eram apenas os corpos que se uniam, eram duas almas que se fundiam, mas ocultavam seus medos e desesperos, pois elas sabiam que poderia ser a última vez. E a derradeira nota veio com o clímax intenso, sofrido, canção da despedida. Pela última vez ela repetiu seu nome, e finalmente as lágrimas partiram para o vazio, mas ela fez de tudo para oculta-las, afinal, aquilo tudo deveria ter sido apenas um sonho.
Combinaram de não se encontrar no dia seguinte, afinal, nas duas últimas semanas tinham se visto todos os dias. Ele sabia que aquele dia seria decisivo para ambos. Ela tinha consciência do que era preciso para sobreviverem, no entanto, no dia seguinte, finalmente diante da decisão, ela preferiu não escolher, mas lá no fundo sabia que a resolução tinha sido tomada.
Da última vez que os amantes se encontraram ela tentou fingir que não sabia o que iria ocorrer e indagou o que estava acontecendo. Ele fingiu que não era nada demais e sorriu, pegou a mão dela e a sentiu tesa, tensa. Ninguém sairia impune ao assassinar dois belos amantes, pensou ele. Então ele a fez sentar em seu colo e relembrou sucintamente de tudo que passaram até ali, abraçou-a, e confessou-lhe que já sabia que era chegada à hora do fim. Ao ouvir isso, mesmo sabendo do que estava por vir, Júlia se sentiu surpreendida, lá no fundo acreditava que teria mais tempo, tentou ser hostil, não queria se desmanchar, não queria expor quão devastada estava diante daquela situação. Sentindo sua aflição ele voltou a falar de todo sentimento que tinha por ela, e que no final das contas, tudo foi uma questão de escolha, e desta vez, ela não coube a ele, e na omissão dela já havia um veredito, não seria mais possível que os dois amantes continuassem, não haveria condições de se criar novas história.
E no final da canção houve um beijo de despedida, sem brigas, sem dramas expostos, mas tão profundamente triste. Após o beijo veio um abraço tão forte.
-Você sente o mesmo que eu?
-Sinto
-A vontade de não mais lagar...
-Como sou burra, burra, burra! Chegamos tão perto...
-Eu sei, nós fomos perfeitos, nós demos certo.
-Ta bom, adeus! Até outra vida...
By-Adriano Cabral
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