sábado, 3 de maio de 2014

Histórias Sonhadas

- Olha você aí, mais uma vez após meses reaparece, esta sem sono? Afinal, são já 1:30 da manhã.
- Pior que estou sem sono mesmo, estou aqui tentando estudar para compensar a besteira que fiz.
- Qual foi, pode compartilhar comigo?
- Pera, vou demorar um pouco mas, já falo.



E foi assim que se iniciou mais um bate papo on line entre Felipe e Joana. Fazia pouco mais de um ano que teclavam. Se "conheceram" através da namorada dele que dizia que Joana era sua irmã gêmea perdida. Felipe ao analisar várias fotos postadas em redes sociais, reconhecia uma certa semelhança, mas nunca achou-as tão parecidas quanto se alardeava. Um dia sua namorada destacou que os traços parecidos entre elas se restringiam mais aos aspectos físicos, no entanto, as personalidades eram completamente distintas. Curioso, Felipe adicionou Joana em uma das redes sociais que frequentavam e a partir daí criou um curioso laço.

Nos primeiros dias conversavam longamente, ambos tinham em comum além do "parentesco" perdido, afinidades intelectuais. Ambos, faziam o curso de filosofia, só que ele era professor e ela ainda era aluna. Passaram horas divagando sobre a vida, o mundo, o direito, do amor e outros demônios da existência. Ele era ousado demais e não raro utilizava palavras ríspidas e duras sobre as coisas e pessoas ao mesmo tempo demonstrava uma sensibilidade acima do comum.  Ele passava uma segurança no que dizia e fazia que chegava a irritar Joana. Esta, não obstante bem no fundo do seu ser ter a mesma natureza indômita de Felipe, no mundo real passava a imagem de uma pessoa tímida, retraída, sempre na defensiva, não queria chamar a atenção, e quase sempre se isolando do mundo, mergulhada em livros e sonhos. Eram os livros sua principal desculpa para deixar de interagir com outros seres humanos e também o único consolo da sua solidão. Não obstante, Joana tinha um dedicado namorado que tinha a paciência única e infinita de suportar as variações de humor dela, que eram muitas, e também as longas ausências, portanto, se nunca teve uma paixão avassaladora, tinha o homem perfeito.

Os meses se passaram e eles gradativamente conversavam muito pouco, dia sim quatro meses não. Mas sempre que se reencontravam parecia a ambos que o papo acabara ontem. Não obstante os grandes intervalos de tempo, todas as vezes que se encontravam, a afinidade entre eles ficava mais patente, contudo, ela sumia misteriosamente sem deixar vestígios, como se temesse que aqueles tênues laços se tornassem mais fortes do que deveria. Não que houvesse algo de íntimo demais nas palestras que ambos tinham, mas há certo tipos de pessoas que sempre que podem, ou não, evitam ao máximo alimentar qualquer sentimento que possa trazer algum "transtorno" amanhã.

Diante disso, mesmo após mais de um ano de contato e levando-se em conta o desejo da namorada de Felipe que ele encontrasse sua "irmã", Joana sempre arranjava uma desculpa para evitar o encontro, sem nunca dizer isso claramente. Mas a vida é cheias de surpresa, concorda? E naquele dia que começaram a conversar de madrugada, sim, a conversa que está no início da história, Felipe tinha sido contratado como palestrante num congresso de filosofia que aconteceu num hotel do litoral sul de Pernambuco. Como estava só e entediado, tentou acessar em vão a internet de seu quarto até descobrir que o sinal só funcionava na área da piscina ou do restaurante do hotel. Lá estava na restaurante do hotel quase vazio, a não ser por uma moça que estava distante uns vinte metros, também mergulhada no computador. Ou seja, estava praticamente só.

- Bem, já se passaram meia hora e você pelo visto está muito ocupada e não quer compartilhar a grande besteira que você fez, vou me recolher...

- Ah! Desculpe! estou fazendo mil coisas, estou com insônia de novo para variar. Enfim a besteira que fiz é que inventei de fazer algo que parecia inteligente mais resultou numa grande burrada.

- Finalmente quer dizer que crime você cometeu?

- Me inscrevi num congresso idiota que só tem gente idiota falando e por óbvio, uma turba de inúteis assistindo...

- Ah! Você deveria ter me avisado, também estou num congresso, como palestrante, tenho certeza que se você fosse para meu evento não estaria entediada... Que pena!

- Para piorar a rede não funciona nos quartos, só no hall e na área da piscina, acredita nisso?

- O problema deve ser endêmico, no hotel que estou a internet é uma droga, estou aqui sozinho no restaurante da piscina para acessar a internet acredita?

- Eu também, só estou incomodada porque até bem pouco tempo estava sozinha, agora um senhor esta sentado atrás de mim, estou com um certo receio...

- Que bobagem, você não esta num hotel? Nisso Felipe olhou ao redor e viu ao longe a moça sozinha, a poucos metros dele, já tinha esquecido dela. A propósito, reparei que tem uma mocinha aqui comigo, será que ela está com medo de mim achando que posso ser um tarado.

- Que onda, quem sabe não estamos no mesmo hotel...

- Impossível, o congresso que estou não é tão chato quanto o descrito por você, afinal, eu sou palestrante...

- Tá bom, então se levanta e vai lá dizer oi pra garota, aí saberemos se estou ou não errada. Joana disse isso em tom de brincadeira, pois também acreditava ser impossível que ambos estivessem no mesmo lugar.  Ao ouvir  os passos atrás dela se aproximando, seu coração bateu acelerado, suas mãos soavam frio... seus nervos quase explodiram quando ela ouviu a voz dele....

- Boa noite, Joana.

- Ai Felipe! Que susto... Não sabia muito bem o que dizer.  Por sua vez Felipe, sorridente, sentou na cadeira ao lado dela, fechou o Notebook e perguntou em tom jocoso:

- Quer dizer que o congresso que você se inscreveu é um saco e sem graça? Ela não conseguia pronunciar palavra, de repente ficou intimidada com aquele encontro inesperado, ele continuou. Tudo bem, estava chato até você assistir minha palestra amanhã, agora me fale, o que você estava estudando...

Ao ouvir essa pergunta, naturalmente ela começou a falar sobre os autores que estava analisando, as reflexões que tinha feito, as críticas mordazes que tinha em relação a determinadas posições filosóficas, e entretida no mundo do conhecimento deu-se até oportunidade de sorrir. E pela primeira vez, Felipe e Joana conversaram, passado o impacto inicial, pareciam agora o que de fato eram, velhos amigos.

Felipe ficara fascinado, ela era tudo que ele esperava e um pouquinho mais, enquanto Joana, que já desconfiava, teve a certeza que com ele estaria a vontade pra falar qualquer coisa.

E durante os dois dias que se seguiram se viram bastante, almoçaram e jantavam juntos e varavam a madrugada conversando sobre a vida, o universo e tudo mais.  Na noite do último dia a maior parte do tempo conversaram normalmente, mas havia um clima de despedida no ar, uma dor oculta em cada palavra que era proferida, uma saudade antecipada.  O relógio apontavam  quatro horas da manhã.

- Esta na hora de ir, certo Joana?

- É, vou embora hoje antes do meio-dia, meu namorado vem me pegar. A gente se vê por aí.

- Você sabe que a gente não vai se vê... Você sabe que no fundo isso que tivemos nunca mais vai acontecer.

- Mas...

- Você poderia tentar me enganar, mas sabes que é inútil, e se enganar está fora de questão, você é muito inteligente pra isso. Mas já que é assim, foi bom né? Fomos perfeitos.

- Eu sou perfeita! Disse num grande sorriso.

- Sim, essa é a Joana que eu esperava. Dito isto, ela caiu na gargalhada e ele a acompanhou.

Na hora final, Felipe pegou a mão de Joana e a moda antiga, curvou-se e beijou-a docemente desejando boa viagem. Ambos se afastaram com os corações pesados e uma angústia inexplicável.

Depois desse encontro nunca mais se falaram.

Comparam a vida a uma peça de teatro, um livro, contudo na vida real algumas histórias,mesmo que pareçam a princípio serem únicas, intensas e interessantes, acabam simplesmente não sendo...escritas,  sendo apenas imaginadas ou quem sabe, sonhadas.

by- Adriano Cabral




quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A Traição Honesta


 

 
 
 
 


O Céu desabava mais uma vez nas ruas de Recife. Era cada vez mais difícil distinguir o rio do mar, as ruas do rio. Ágape estava tranquilamente sentado na cadeira à varanda de seu apartamento observando a água e o vento darem seu espetáculo. Nestes momentos de extrema solidão, uma parte dele refletia se já não era o momento de deixar de ser o eterno solteiro. Tais pensamentos foram interrompidos pelo barulho retumbante de alguém batendo à sua porta. Acordou dos seus devaneios e foi direto a entrada de seu lar, curioso, afinal, era domingo, havia seguranças, havia campainha, como alguém podia estar batendo à sua porta?

Imediatamente ao abrir a porta, alguém penetrou em sua sala sem aviso, sem chance de uma reles saudação. Ágape ficou estático diante de tanta "agilidade", fechou a porta calmamente e se voltou para a figura ofegante, reconheceu-a imediatamente como uma de suas "aconselhadas", com olhos, indagou a mulher que estava completamente ensopada pela chuva o que significava aquela invasão:

- Preciso muito de sua ajuda, é urgente, preciso muito, por favor! Não me expulsa. Faço qualquer coisa, mas me ajude! Nisto Mirella abraçou Ágape com tanta força que quase o deixou sem ar.

Em outros momentos os abraços dela teriam-no deixado bastante satisfeito. Afinal, Mirella era um "atentado ao pudor ambulante". Era uma mulher muito alva, mas com corpo de "mulher brasileira" tendo tudo em abundância. E como quase toda mulher que é brindada pela natureza com tamanha beleza, costumava usar roupas que destacavam todo aquele continente de luxúria contido em uma mulher. Naquele dia, não obstante o clima chuvoso, ainda usava um vestido curto, meias de frio que não conseguiam impedir que se destacassem aquele par de pernas que já fizeram curvar-se centenas de pares de pernas de homens, todos humildes, em sua adoração.

Ágape prometeu-lhe ajuda, trouxe-lhe uma toalha e um roupão. Depois que a mulher ficou relativamente reposta, Ágape pediu-lhe que falasse:

- O Cesar, ele vai descobrir tudo. Com um olhar Ágape indagou o que se tratava esse tudo.

- Bem, você sabe, estava saindo com Cesar, mas sem compromisso, ao menos sem compromisso meu, acrescentou. Enquanto estava com ele me encontrava com vários "amigos", um deles acabou de me ligar revoltado porque não quero mais sair com ele e disse que enviou nosso "vídeo" para o Cesar. A expressão de Ágape indicava que ele ainda não havia detectado qual era o problema. Mirella notou tal fato e prosseguiu. Eu sei que tinha dito que ele era um idiota, que não sentia nada por ele, mas sabe, agora que estou prestes a perdê-lo sinto que queria tê-lo mais tempo perto de mim, acho que estou definitivamente apaixonada.

- E você descobriu isso justamente agora, quando sua paixão irá assistir um vídeo "animado" seu com outra pessoa?

- Ágape, você mesmo mais de uma vez me disse que as grandes coisas do coração acontecem sem motivo. Eu quero sua ajuda, me diga como salvar minha relação, sei que é impossível, mas justamente aprendi com você que essa palavra deixa de existir quando se trata de sua pessoa. Diga-me, há como salvar essa relação?

- Você deseja muito isso? Indagou.

- Muito!

- Faça exatamente o que eu disser. Primeiro ligue pra ele imediatamente após essa conversa e fale que quer romper com ele e não dá mais para sustentar o relacionamento.

- E o que vou dizer para justificar o rompimento.

- A verdade oras! Diga-lhe que o trai. Ao perceber o espanto da mulher prosseguiu, não sem antes deixar entreaberto um sorrio marôto. Não só que o trai, diga que o trai sistematicamente. Ele provavelmente vai ficar uma fera, irá insultar-lhe, não discuta, diga-lhe que tem toda razão, que você não presta por isso mesmo a relação tem que acabar.

- Mas Ágape, quero ficar com ele, não vejo como confessar e romper me fará mantê-lo perto de mim. O olha severo lançado por ele deixou claro que não queria interrupções.

- Ele provavelmente prosseguirá a te insultar, você tem que dar toda a razão, não discuta, diga que o ama, mas sabe que fez besteira e que não merece ficar com ele. Provavelmente ele vai intensificar as acusações, fará de tudo para te magoar, neste momento você irá dizer que ele jamais deve procurá-la e desligará o telefone.

- E então tudo acaba mesmo.

- Você confia ainda em mim ou não? Quem te mostrou até agora todos os caminhos na teoria e na prática, da vida e do prazer quem te levou a luz intensa?

- Perdão, confio em você com minha vida, todas as vezes que duvidei foi apenas para depois comprovar que eu estava errada, continue por favor....

- Provavelmente se passará alguns dias para ele te contatar, você tem que ser forte, esperar ele dar o próximo passo, provavelmente ele inventará uma desculpa para conversar contigo, a devolução de algo, o pagamento de uma dívida, enfim, qualquer desculpa, na ocasião irá de novo lhe recordar de como você foi má, nesta hora você será extremamente dura e dirá para ele não lhe dirigir mais a palavra, que sabe bem que errou mais não suporta mais viver sendo julgada. Obviamente ele ficará indignado e vomitará com todo gosto todo mau que você causou.

- Cada vez fica mais difícil entender onde vou acabar.

- Simples, a raiva dele vai passar, o fato de você não ficar implorando pra voltar irá incomodá-lo profundamente. Provavelmente aos poucos só vai ficar na mente dele suas palavras dizendo que não o merece mais e seu sofrimento. Então, ele irá inventar mais e mais desculpas para falar contigo, e aos poucos vai pedir pra voltar, quando isso acontecer você irá dizer que não quer.

- Como assim?

- Ele vai insistir e será a hora que você retomará o controle, aceitará sob a condição dele jamais tocar no assunto novamente. Todas as vezes que ele se referir as traições, mesmo que levemente, você irá surtar e massacrá-lo, lembrando-lhe da promessa, de repente ele vai acabar se sentindo cada vez mais culpado por lembrá-la do seu deslize, e cada vez será mais seu. Fim de jogo.

Ao ouvir isso o rosto de Mirella iluminou-se, se dirigiu para Ágape, abraçou-o longamente e beijou-lhe demoradamente, Ágape afastou-a suavemente sussurrando em seu ouvido: você já esta pronta, agora quero que volte daqui há seis meses. Só não fuja do plano e terá sucesso.

Oito meses depois Mirella deu notícias, não em uma visita, mas por e-mail, nele havia a seguinte mensagem: " Fiz tudo que você me disse mestre, e de fato ele acabou implorando pra voltar pra mim e no passar dos meses demonstrava estar completamente apaixonado, entregue, carinhoso, totalmente meu. Mas o excesso de atenção e carinhos o deixou pegajoso e chato, acabei terminando com ele, mas cada vez ele insistia em voltar e se submetia a tudo, tanto que aceitou até que saísse com outros homens, inclusive incentivou-me quando passei a noite em nossa casa com um casal de que conheci de São Paulo. Mesmo assim cansei dele e chutei-o. Realmente Cesar era apenas um idiota sem graça. Te amo mais que nunca mestre, sempre com saudades do tempo que era sua discípula em aprendizado, até breve! Tua Mirella"

Ágape sorriu, o sol queimava o Recife e as histórias continuavam a seguir com seus caminhos, lógicas e conclusões.

by- Adriano Cabral.

 

domingo, 24 de março de 2013

Nunca Fomos Tão Felizes



Enquanto a cidade dorme vou escrevendo essas linhas, não sei exatamente a razão, mas conheço muito bem a sem razão que faz com que minha vida tenha se tornado um débil retrato do passado.
Mas como se pode viver no passado se ele, efetivamente, já passou? Passou, mas se em regra as memórias são esvanecentes ou enevoantes, há delas que são pedra, rocha, impossível de se intimidar com as intempéries do tempo.
Ligo rádio e ouço mais uma música onde a letra fala de alguém que ama demais, e sabe que a pessoa amada, que partiu, jamais terá um sentimento tão profundo e intenso como o dele. Ah! Um dia esse e tantos outros pobres diabos descobrirão que não adianta achar que ama, que é intenso, especial e único, se tudo isso é sentido e vivido...sozinho. Um dia, vai também aprender que as promessas e juras feitas no passado não foram pura ilusão, apenas mentiras verdadeiras, talvez, naqueles exatos momentos, tais juras tenham saído como verdades, mas o tempo amigas, o tempo adora trair tudo que somos, ou pretendíamos ser.
Ainda é preciso aprender que lá no fundo a única coisa que faz com que alguém permaneça ligada a outra pessoa é o interesse, quando ele acaba, acaba. É uma verdade tão....Simples. Mas criamos um enorme labirinto de razões e sem razões para sustentar uma esperança, quase sempre falsa, que no final das contas, foi e é especial, único, perfeito e jamais será como naquele dia que tudo se foi. Como diria a poetisa " nunca fomos tão felizes".
Enquanto a cidade dorme vou lembrando o dia em que rasguei todas as cartas, queimei o album de casamento, deletei toda e qualque informação que tinha dele no meu computador, e de novo, tenho a certeza que tudo que tentei apagar parece até mais nítido e claro dentro de mim, pois a rocha da memória torna a falta dele algo presente. E eis que o passado se fixa, louca, tento levar minha mente rumo ao futuro, mas quando penso no agora, sinto-me como se vivesse apenas num sonho, ou será um pesadelo, arremedo de vida que tenho que viver, afinal, ainda respiro, respiro?
A cidade dorme, e estou aqui acordada, divagando, de novo, porque você foi embora? Porque você não sai de dentro de mim? Por que sou tão fraca? O que nos faz tão fortes a ponto dos anos apenas esconder-nos dentro de mim. Penso que provavelmente você, que nem estará me lendo, nem lembra do meu sorriso que desapareceu no seu.
Enquanto a cidade repousa, tranquila, minhas mãos, úmidas, tocam o teclado sangrento. Fecho a porta, ela abre. Não tenho escapatória, vou parar de escrever e tentar dormir, quem sabe sonhar, e por Deus, estúpida, quero sonhar com ele e depois, desaparecer.

by Adriano Cabral.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Escrever é coisa de Infeliz? 2013 Responderá....

Comecei a escrever efetivamente aos doze anos. O mundo não me bastava, sentia a necessidade de reinventá-lo, seja para amá-lo mais ou quem sabe apenas suportá-lo. Durante a adolescência foram vários poemas e textinhos entre o melancólico ao nilista. Afinal, como a vida poderia ser boa se eu vivia só. Aos vinte, primeira namorada, parei de escrever. Só retomei três anos depois após levar um sonoro pé na bunda e ser abandonado pela namoradinha que inventou de curtir a vida na europa. Dessa desilusão surgiu um livro, que sou obrigado a confessar, considero a melhor coisa que já escrevi na vida.

Mas o tempo de solidão durou pouco, e pouco tempo depois estava de namoro novamente e logo após casei. Passei cerca de dez anos sem escrever com regularidade. Apenas em 2008, com separação e nova solidão acabei criando um blog e despejei mais de uma centena de textos, com os mais variados temas, para deleite de alguns poucos leitores que me visitavam regularmente. No entanto, não há mal que dure pra sempre, diz o ditado, sei lá, é algo parecido. Hoje novamente estou feliz no amor de bem com a vida no trabalho e o que acabou acontecendo? Deixei de escrever.

Não, os personagens não me abandonaram, as idéias não deixam de povoar meu inconscimente, mas o fato é que parece que só os infelizes realmente conseguem escrever.

Acabei de retornar de um show legal do Capital Inicial (apesar de alguns dos músicos da banda estarem realmente precisando de aulas) e passei o restinho do reveilon com a família. Estou feliz, é fato. E mais uma vez me veio a pergunta: Só os infelizes que conseguem escrever?

No século retrasado, algumas intelectuais, como o próprio Machado de Assis, defendia que quem apenas lê muito é um idiota, só os escritores poderiam se salvar. Será que é assim que me sinto às vezes? Um idiota que apenas lê?

2013 irá responder... Uma grande parte de mim quer provar o contrário.

Pois é, vou dormir, cinco e meia  da manhã (vixe isso ta parecendo facebook.rs)

Bom dia, feliz ano novo...
...e que venha 2013

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Aos 40, É Cedo ou Tarde Demais...





Neste final de semana tive uma daquelas raras atitudes impulsivas e decidi que tinha que ver o show da banda de rock (ou da idade do rock) Titãs.

Por infinitos motivos que não vem ao caso falar agora, raramento saio de casa para ir  aum show, ainda mais num "arroubo" impensado. Isso de ir a show, acontece uma ou duas vezes por ano, e quase sempre, é fruto de ponderação e longo planejamento. A apresentação era no sábado, e na sexta-feira decidi que iria. Encarreguei minha belíssima amada de procurar ingressos enquanto fui trabalhar. A noite para meu espanto, ela me informou pesarosa: já foram todos vendidos.

Seres humanos e suas necessidades, desde as mais básicas como comer e respirar, quanto as mais complexas como de ir a um espetáculo de rock. Como assim? O entretenimento não é necessidade? É sim, ela existe mesmo se for nascida de um impulso. Talvez essa seja a maior diferença do humano e do animal, o primeiro pode inventar necessidades e o segundo vive e morre apenas em função dela.

O fato que necessidades, mesmo as frívolas, podem ser brindadas com a sorte, acaso, destino ou presente piedoso para um ser, como eu, que passou no meio do caminho da vida e já consegue, sem muito esforço, divisar o fim que se aproxima. E a sorte me brindou com um telefonema da minha irmã me convidando para ir a apresentação que tanto queria ir, ela fazia parte da equipe de produção e tinha conseguido dois ingressos. Melhor que realizar uma necessidade impulsiva é realizá-la de graça.

E lá estava eu no meio da multidão de cinquentões e quarentões e algumas centenas de adolescentes. Yes, pra quem não sabe ainda (e provavelmente não vive neste planeta) Titãs é tipo aquela banda que insiste em sobreviver como um grupo de música "jovem" mas já está na estrada há muitos anos, tanto que na ocasião, estavam festejando trinta anos de sucesso.

O fato é que, quando a música explodiu com os membros  da banda pra lá de cinquentões saltando no palco animados, quando vi aqueles velhos jovens remexendo e pulando com uma energia dissonante das velhas carcaças presentes, acabei juntando-me a turba e acabei voltando no tempo. Tinha agora vinte anos e gritava, pulava pateticamente feliz com toda aquela barulheira infernal.  Deixei-me levar, mergulhei e me embriaguei nas músicas, no som, nos gritos e na sofreguidão desesperadas, tão comum para aqueles que dizem"vamos lá tudo bem, eu só quero me divertir, me esquecer dessa noite ter um lugar legal pra ir". Era rock na vêia.

E hoje, aos 40 anos de idade me vi de volta aos vinte, ouvindo a mesma banda que retumbava os meus ouividos no velho vinil de capa grande. As vezes a lucidez retornava e me via apenas como mais um, na fila do rebanho de condenados, ansiosos para se distrair. Mas no final da noite, aos 40, com vigor de vinte, tive algo bem diferente do que tinha nos velhos tempo, minha amada, uma jovem com menos de 30, em meus braços, sorrindo, repetindo pra mim " relaxa amor, somos tão jovens..."

E nesse momento, enquanto ela me beijava, pensei: "não foi tempo perdido..."

By Adriano Cabral






segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Três Aninhos


E mais um ano se passa. Hoje faz três anos que comecei a aventura de publicar e manter um blog. Confesso que ultimamente ando deixando de cuidar dele de forma adequada. Mas prometo que a partir de agora hei de retomá-lo e ao menos publicar um textinho por semana.

Agradeço a todos que continuam a ler e compartilhar as histórias aqui trazidas. Grato pelos que comentam, ou ainda calados, lêem muito como o pessoal (ou pessoa de Itabuna)

Amanhã tem texto novo na área, e este ano, não haverá votação para melhor texto do ano.

Aos demais não esqueçam, já são 127 textos publicados, logo, talvez o novo seja algo que para alguns seja velho.

Um grande abraço

by- Adriano Cabral

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Até que a Morte os Separe


- Oi, meu nome é Amélia, se realmente tiver algo a dizer, pode deixar um recado após o bip, senão, não enche a caixa postal tá? Esta era trigésima vez que André ouvira a mensagem eletrônica, ele rediscava, sabia que ela jamais iria atendê-lo, sabia que era tarde demais para qualquer palavra além daquelas repetidas pela mensagem gravada. Mas sobretudo, ele sabia que seria a única forma de ouvir a voz dela. Enquanto isso ele não parava de relembrar, entre lágrimas, como tudo terminara.
      Tudo começou com um telefonema:
- Alô! André, ela ta muito mal, no hospital, foi socorrida hoje pela manhã, nossa família já está toda aqui dando assistência ao irmão, ele ta desesperado.
- Tá, vou chegar aí já já. Em seguida ele ligou pra sua "Lela" comunicando que não iria comparecer ao encontro marcado.
Ao chegar ao hospital ele encontrou seus pais, suas irmãs e muitos amigos, todos correram para abraça-lo, a comoção era geral, o estado dela era muito grave. Ele passou a noite toda lá, em virgília, o telefone dele chamava-o sem cessar, ele repetia o de sempre: Não possso sair daqui, você não entende Lela? Ela esta em estado grave, pode morrer. E na manhã seguinte ela morreu. Após receber a confirmação da morte, André caíu prostrado na cadeira. Passou o resto do dia entre abraços condolentes, ligações no mesmo sentido e um vazio enorme impossível de ser preenchido. Ontem mesmo falara com ela, tão jovem, nem trinta anos, como Deus pode fazer isso, tudo bem, ela tinha uma vida maluca, boêmia, mas não merecia partir assim, tão cedo. Era início da noite e o telefone tocou novamente:
- André, eu tou viva! Você vai ficar nessa?
-Lela, entenda, é melhor a gente não se encontrar hoje, não quero que me vejas assim, amanhã a tarde é o enterro, outro dia a gente se vê.
-Mas André, ela morreu, acabou, é passado, estou aqui viva! Você ainda vai para o enterro bancar o viúvo? Já não basta?
-Lela, eu vou, sinto muito, não importa o que você diga.
-Então eu vou contigo.
-Melhor não.
-Ou você vai comigo ou não vai, eu te amo! Mesmo neste momento tenho que estar ao teu lado.
      Na hora que André e Lela entraram no espaço destinado ao velório ele correu para os braços da mãe e chorou copiosamente. Várias pessoas vinham prestar-lhe as condolências de praxe. Ao largar os braços da mãe Lela tentou segurar a mão de André, este passou por ela como se não a tivesse notado e se dirigiu ao local onde estava o caixão. Ela ficou ao longe vendo-o olhar a defunta com dor profunda, lágrimas constantes e pungentes. Num determinado momento, o pai da morta discursou e agradeceu a presença de André que depois dele, o pai, foi quem mais amou a filha e sempre fora amado por ela, nisto abraçou-o e todos aplaudiram. No momento em que a tampa do caixão estava sendo posta, o desespero foi geral, inclusive de André. Lela, mesmo furiosa, se comoveu e foi em direção ao seu amado, no entanto, ele pediu pra ela se afastar, falou que naquele momento, preferia a companhia de seus amigos, e seguiu o cortejo até o túmulo amparado a duas amigas da morta.
No caminho  para casa de André,  ainda no automóvel, estavam as duas irmãs de André, sua mãe e Lela. A conversa sempre recaía na morta, de forma elogiosa. Lela, observou que não foi adequado o pai da falecida referir-se a André como amor da vida da filha, afinal, ela, Amélia, era a namorada do André agora já fazia quase um ano. Nisto a irmã mas velha de André, Letícia interrompeu com fel na voz:
- Ah! Amélia, Lela, sei lá, fica na tua, realmente André e Amanda quase se casaram e se amaram muito, e todos desta família queríamos aquele casamento. Ao ouvir isso Amélia procurou seu namorado com os olhos em busca de socorro, ele não parecia ter nada a dizer, continuou dirigindo. Amélia não pode conter uma lágrima que caíu solitária.
Pouco depois, a mesa de jantar, o assunto eram as qualidades de Amanda, as histórias engraçadas relacionadas a falecida e como André e Amanda eram perfeitos. Agora a turma nunca mais vai ser a mesma: Não cansava de repetir Ronaldo, melhor amigo de André. Amélia estava sentindo-se sufocada, disse ao namorado que iria embora, ele aceitou imediatamente a sua partida. Durante a despedida Amélia deu-lhe um beijo longo e disse:
-André, eu te amo! Eu ainda estou viva tá?
-Lela! Estou muito triste, depois a gente conversa, eu também gosto de ti.
Durante toda semana não se falaram, no final de semana seguinte André ligou pra Amélia.
- Lela, vamos nos ver hoje?
-André, lembrou finalmente que estou viva? Sabe, passei essa semana inteira remoendo a humilhação de você ter me deixado por três dias para se dedicar a sua ex-namorada moribunda e essa sua semana inteira de luto. Ao fato da sua família me humilhar com a preferência à morta e você não me defender. Mas estou tentando superar isso, mas você nem ao menos me ligou pra saber como eu estava, nem ao menos pensou no que eu senti.
-Mas Amélia, Amanda não era só minha ex namorada, ela era amiga de toda minha família.
-E eu sou o que?
-Amanda é passado...
-Pois é, ela deveria ser passado, sabe André, tenho uma novidade pra você.
-Deixa de drama mulher! Não fiz nada demais...
-Eu morri.
Dito isto o telefone ficou mudo, ele ligou várias vezes, procurou-a de todas as formas, através de amigos em comum Amélia informou que não queria de forma nenhuma ter contato com André. Este, agora, nem consegue mais pensar em Amanda e sua morte, agora ele só pensa e sente saudades de sua Lela, que mesmo viva parecia estar no além. As vezes os seres humanos são assim, esquecem de viver a felicidade presente apenas para se alimentar do passado e seus mortos. Enquanto isso, André rediscava e ouvia:
Oi, meu nome é Amélia, se realmente tiver algo a dizer, pode deixar um recado após o bip, senão, não enche a caixa postal tá?

by- Adriano Cabral